UHF são “Os Vampiros” na Idade Média Moderna

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Quando há dois meses, na primeira quinzena de Junho, os UHF decidiram gravar esta velha canção do José Afonso não imaginavam que a tragicomédia pudesse chegar a uma sala cheia de apupos. Seguiram o desafio que Maria das Dores Meira, presidente da edilidade setubalense, lhes fez a 19 de Abril na sala José Afonso da Casa da Cultura local, no final de um showcase em que os UHF tocaram exclusivamente canções do autor de “Traz Outro Amigo Também”. Os Vampiros”, de José Afonso, neste dia 2 de Agosto viu nascer.

 A propósito da presente gravação, escreveu Maria das Dores Meira:

Por estes dias é comum dizer-se que a letra de os “Vampiros”, de José Afonso, recuperou, ao fim de cinquenta anos, total actualidade perante desmandos cometidos, com obediência e prazer, por ordem de poderosos poderes externos que nos exauriram com austeridade ilegítima e forçada.

(…) Mais do que um alerta, é um poderoso alento para que nos recordemos que seremos sempre capazes de vencer os vampiros de hoje, como vencemos os que nos mergulharam, por quase meio século, em profundo obscurantismo.

Ao António Manuel Ribeiro agradeço, ainda, por, com estes “Vampiros”, nos recordar de um homem ímpar que na cidade do Sado viveu e morreu, na cidade do Sado se inspirou, e nos inspira, para os combates de hoje e para os muitos que ainda estão por vir.

E o líder dos UHF, autor do arranjo, aduziu:

Nasci entre duas guerras que esmagaram pela mesma valentia profética – a estupidez – o sorriso do homem. A II Guerra Mundial acabara em 1945; a guerra colonial portuguesa começara em 1961. Nasci para a paz, ouvi as orações devotas das mulheres aos domingos e destapei pelo caminho o cinismo e a moral que fingiam cenários como realidade.

(…) Tinha 15 anos quando uma canção me abanou. Andava a estudar na delegação almadense do Liceu D. João de Castro, num pré-fabricado que ganhou o cognome de ‘barracão’ por se ter tornado definitivo, como tanta coisa por cá.

(…) O meu olhar corria as linhas traçadas sobre o alcatroado que nos servia de campo de jogos e recreio, os primeiros namoros, o fim da timidez que a puberdade promove urgente.

Ao lado dos apontamentos ia tentando engatilhar umas rimas, os primeiros versos de que me lembro ser capaz, que tropeçavam sem solução, qualquer coisa que vinha daquela canção que ouvira depois da meia-noite no meu pequeno rádio a pilhas. Já só me lembrava do refrão e da voz do cantor proibido, dolente, como quem proclama um choro, um grito perdido num beco esconso e frio.

Porque cansa este estado em que nos deixamos intrigar, as parcelas em que nos dividimos, a plenitude civilizacional que conquistámos e que a cada passo nos retiram, servos da gleba de uma Idade Média Moderna – como se perdeu a vergonha quando se engana o mundo.

Foto: rita carmo