Há músicas que já nascem com nervo. Esta era uma delas. Mas alguém decidiu apertar ainda mais o parafuso. E pronto, ficou assim, meio descontrolada, meio elétrica, como se tivesse sido feita às três da manhã quando já ninguém quer saber das consequências.

As Wet Leg voltam a mexer em «mangetout». Desta vez com a ajuda de The Dare, produtor que anda a espalhar caos organizado por onde passa. A canção já fazia parte de ‘moisturizer’, o segundo álbum da banda. Agora ganha outra pele. Mais suor. Menos contenção.
Tudo começou numa noite qualquer no Texas
Não foi uma reunião formal. Nem uma troca de e mails estudada. Foi num afterparty em Austin, em outubro. Cabine de DJ partilhada. Música alta. Copos na mão. Aquelas decisões que nascem ali, no meio do barulho.
The Dare, que já trabalhou com Charli XCX, pegou na faixa e fez o que sabe fazer. Subiu o BPM. Empurrou os sintetizadores para a frente. Deixou a guitarra respirar menos. A ironia mantém se, mas agora parece dita com um sorriso mais torto.
Uma versão que não pede licença
A original tinha tensão. Tinha aquele sarcasmo meio desconfortável que as Wet Leg dominam bem. Não era uma música tímida, longe disso.
Mas esta nova leitura não quer equilíbrio. Quer excesso controlado. Há batida insistente, cortes bruscos, pequenos detalhes que parecem quase improvisados. Não soa a remix feita por obrigação. Soa a experiência. A risco. E isso sente se.
Do álbum para o ecrã
‘moisturizer’ já tinha mostrado que a banda não queria repetir fórmula. Havia mais confiança, mais ruído, menos medo de errar. «mangetout» encaixava nesse espírito.
Depois veio a exposição extra. A música apareceu no segundo episódio de ‘Heated Rivalry’, série canadiana da HBO. A internet fez o resto. Cliques, partilhas, comentários apressados. A canção voltou a circular, como se ainda estivesse a aquecer.
Entre palco e pista
Há qualquer coisa curiosa nesta junção. As Wet Leg vêm do universo das guitarras afiadas, da ironia quase seca demais. The Dare vive na pista, na repetição hipnótica, no corpo antes da cabeça.
E aqui encontram se. Sem grandes explicações. Só energia. Como se a música tivesse sido feita para tocar alto, muito alto, até alguém pedir para baixar o volume. Mas ninguém vai pedir. E ainda bem.


















