Há reencontros que não pedem explicação. Acontecem. Décadas depois de se terem cruzado nos LX-90, dois nomes com peso real na música feita em Portugal voltam a trabalhar lado a lado.

©Kenton Thatcher
Não é revivalismo. Não é estratégia de calendário. É outra coisa. A 16 de abril chega o disco de estreia de MÃO. Antes disso, “Brasil de Janeiro” já está cá fora e mostra ao que vêm.
Dois percursos longos demais para caber numa etiqueta
DJ Vibe construiu pistas, noites e reputação internacional quando a cultura de clube ainda precisava de ser defendida. Paulo Pedro Gonçalves fundou os Heróis do Mar e nunca ficou quieto num género só. Rock, jazz, blues. Sempre a mexer.
MÃO nasce por impulso de Tó Pereira. Vontade de continuar a procurar som novo. De testar territórios. Paulo Pedro entra porque traz ruído, textura, história nas mãos. A soma não é óbvia. Ainda bem.
Um single que não pede licença
“Brasil de Janeiro” abre a porta com ritmo quente e pulsação firme. Há referências claras às texturas brasileiras, mas não soa a postal turístico. A electrónica não enfeita. Empurra. As guitarras aparecem e desaparecem como se respirassem dentro da batida.
É um tema feito para pista. BPMs altos, arpejos que insistem, sintetizadores que se esticam sem medo. A house está lá, mas dobrada, torcida, expandida. Não é fórmula. É fricção.
O disco como viagem, mas sem folclore
O álbum homónimo sai a 16 de abril com o selo da Chic Choc Music, editora criada pelos próprios. Oito faixas. Oito paragens. Da América à Ásia, dizem eles. Um mapa desenhado em som.
A ideia é simples no papel e arriscada na prática: absorver linguagens locais sem cair na caricatura. Não copiar, não decorar. Misturar. Deixar que cada faixa tenha identidade própria, mas mantenha um fio condutor. Um gesto. Uma mão.
Entre estúdio e memória
O single foi registado no estúdio de DJ Vibe, em Lisboa. Produção partilhada. Decisões rápidas, outras mais discutidas. Nota-se que há confiança antiga ali, mas também tensão criativa suficiente para evitar conforto.
O vídeo de Richard F. Coelho mistura imagens analógicas de arquivo com a energia digital da música. Não é um simples acompanhamento visual. Amplifica a ideia de viagem, de passado reconfigurado.
MÃO começa aqui. Não como ponto de chegada, mas como abertura. “Brasil de Janeiro” é só a primeira coordenada. O resto ainda está a desenhar-se. E talvez seja isso que interessa.


















