Em 2016 eu já estava cansado do pop. Cansado mesmo. Tudo parecia feito com a mesma fórmula, os mesmos sintetizadores limpos demais, os mesmos refrões prontos para explodir numa festa onde ninguém presta realmente atenção à letra. Música pensada para funcionar, não para ficar.
E depois apareceu “Kiss It Better”.
Não foi imediato. Não foi um choque barulhento. Foi uma pausa. Uma espécie de silêncio no meio do excesso. Vi o vídeo e fiquei parado, sem saber muito bem explicar porquê.
Não é daqueles vídeos que se contam. É daqueles que se sentem primeiro e só mais tarde tentamos arranjar palavras.
O que é que ela está realmente a fazer
A primeira vez que vi, não percebi logo. Preto e branco. Luz a cair devagar sobre a pele. Movimentos que pareciam soltos, quase improvisados, mas demasiado precisos para serem acaso.
Fiquei com aquela sensação estranha de estar a assistir a algo íntimo demais. Como se tivesse entrado num espaço privado. Mas ao mesmo tempo nada ali parecia proibido. Não havia culpa. Havia escolha.
Não existe história. Não existem personagens secundárias. Não há cenário que distraia. É ela e a câmara. E aquele espaço invisível entre as duas coisas.
O vídeo vive ali.
O detalhe que mais me marcou não foi uma imagem específica. Foi perceber que ela sabe sempre onde está a lente. Em cada segundo. Não está a ser filmada no sentido passivo da coisa. Está a decidir o que se vê.
Parece uma diferença pequena quando se diz assim. Mas não é.
FOTO: AINO FUN
A diferença entre ser visto e decidir ser visto
Há qualquer coisa física nesta distinção. Sente-se antes de se pensar. Ser observado sem controlo é uma coisa. Escolher mostrar-se é outra completamente diferente.
No vídeo, a câmara não invade. Não há pressa, não há corte agressivo, não há ângulo que pareça roubado. A imagem acompanha, quase desenha.
E isso muda tudo.
A nudez deixa de ser exposição gratuita. Torna-se gesto. Torna-se linguagem. O corpo não é um objeto à mercê do olhar. É o centro que conduz o olhar.
No universo do pop, onde muitas vezes o corpo feminino é usado como ferramenta de impacto rápido, esta inversão tem peso. Não é espetáculo. É decisão.
Anti foi mais difícil do que parecia
Quando Anti saiu, muita gente não soube muito bem o que fazer com ele. Não era imediato. Não entregava o tipo de single que a rádio abraça sem hesitar. Era mais lento, mais estranho, mais pessoal.
Na altura isso confundiu. Hoje faz sentido.
“Kiss It Better” carrega essa mesma postura. Não quer agradar a toda a gente. Não corre atrás de aprovação. Existe ali uma calma que não é indiferença. É segurança.
A sensação é clara: isto é assim porque eu quero que seja assim.
E isso, no pop, é raro.
Porque é que isto ainda fica na cabeça
Muitos vídeos envelhecem mal porque tentaram parecer o futuro. Efeitos especiais que impressionam durante seis meses e depois parecem arquivo. Estéticas que soavam inovadoras e rapidamente ficam datadas.
Aqui não há nada disso para perder.
Há luz. Há pele. Há presença.
Dias depois de ver pela primeira vez, não me lembrava de um plano específico. Lembrava-me da sensação. De ter estado perto de algo verdadeiro, mesmo sabendo que foi tudo pensado ao detalhe.
Talvez seja isso que mais impressiona. Quando o cálculo não parece cálculo. Quando o controlo não parece esforço.
No fim, a pergunta não é sobre o que se mostra ou deixa de mostrar. É mais simples do que isso.
Quem manda aqui?
Quem decide o enquadramento. Quem conduz o olhar. Quem tem o controlo.
Neste caso, sabemos sempre.
E essa certeza muda qualquer coisa em nós quando voltamos a carregar no play.


