Alguns dos concertos que estão a decorrer em Ponta Delgada, integrados na programação cultural da cidade, estão simplesmente a passar despercebidos.

A ironia é difícil de ignorar. Enquanto a cidade recebe distinções internacionais e celebra o estatuto de palco cultural relevante, parte da programação musical acontece quase em silêncio, sem comunicação clara e sem chegar verdadeiramente ao público.
Em espaços importantes como o Coliseu Micaelense ou o Teatro Micaelense, têm ocorrido concertos que muitos só descobrem depois de já terem acontecido. Não por falta de qualidade artística. Não por falta de interesse do público. Mas porque a divulgação chega tarde, chega pouco, ou simplesmente não chega.
Isto torna-se ainda mais estranho quando lembramos que Ponta Delgada esteve recentemente no centro das atenções ao acolher os Iberian Festival Awards, um evento que celebra precisamente a excelência na organização e comunicação de festivais. Num contexto desses, seria natural esperar que a própria programação cultural local fosse comunicada com clareza, antecedência e alcance.
A cultura não pode circular apenas entre os mesmos círculos. Concertos, espetáculos e iniciativas culturais devem ser anunciados com tempo, com estratégia e com linguagem acessível. Caso contrário, correm o risco de existir apenas para uma pequena elite informada, enquanto a maioria da cidade permanece de fora.
Também é uma responsabilidade de quem organiza. Produzir cultura exige cuidado não só na programação, mas na forma como ela chega às pessoas. A comunicação cultural deve ser feita por profissionais, com visão e com respeito pelo público que existe e pelo público que ainda pode ser conquistado.
Porque uma cidade que se apresenta como capital cultural precisa de fazer mais do que programar eventos. Precisa de garantir que eles são vistos, ouvidos e vividos.
E neste momento, caminhando pelas ruas de Ponta Delgada, fica uma sensação estranha. A programação existe. Os concertos acontecem. Mas a cidade parece descobri-los sempre tarde demais. Devagar. Quase em silêncio. Até desaparecerem.










