A viola de fado raramente assume o centro da narrativa. Em “Os Melros”, é precisamente isso que acontece. Miguel da Silva constrói um disco onde o instrumento deixa de ser apenas acompanhamento e passa a dialogar diretamente com a palavra, num encontro próximo com a poesia de João Monge.
Nesta entrevista, o músico fala sobre o processo criativo do seu álbum de estreia, as escolhas que moldaram a sonoridade do projeto e a forma como cada colaboração ajudou a expandir o universo do disco. Entre tradição, teatro e experimentação, “Os Melros” revela-se como um ponto de viragem pessoal e uma proposta clara dentro da música portuguesa contemporânea.

O álbum Os Melros nasce de um encontro entre viola de fado e poesia de João Monge. Como começou esta colaboração entre vocês dois?
Esta importantíssima colaboração com o João Monge, que muito me honra, surgiu de uma forma muito natural. É mesmo muito especial para mim poder apresentar este trabalho com poesia de um poeta que tanto admiro, e é realmente interessante pensar no caminho que conduziu a esta parceria. De há uns anos para cá, eu e o João Monge cruzámo-nos em projetos e concertos de vários artistas e trabalhámos de perto na peça “A Voz e a Alma”, uma peça sua para a Maria João Luís e o Helder Moutinho. A escrita do João Monge sempre me impressionou muito e foi, e é, sempre um gosto enorme ouvir, ler ou trabalhar sobre poesia dele. Por me identificar tanto com a sua escrita e com a sua forma de estar na arte, convidei-o a escrever para este projeto. Para além da poesia incrível que me passou, o João Monge acabou por ser um “braço direito” importantíssimo para este projeto, uma peça discreta mas absolutamente fundamental para o álbum que estou a apresentar.
Quando leste pela primeira vez o verso “Os melros voam a tinta-da-china e só comem ovo estrelado”, o que te despertou musicalmente?
Curiosamente, a minha primeira reação a estes dois versos não foi musical… Ler estes versos despertou em mim, primeiramente, uma enorme curiosidade por saber mais sobre o que poderia estar por trás daquelas palavras, e foi, de facto, esse o ponto de partida. A meu ver, este é um poema aparentemente muito simples, mas muito rico e com potencial para muitas leituras. Numa primeira abordagem ao poema, quis passar para a composição a curiosidade que o poema me despertou, e isso foi algo que ficou presente, por exemplo, na forma como o poema vai sendo revelado até ser apresentado na sua totalidade. Por outro lado, este tema tem uma série de imagens que me transportaram para um contexto mais rural, que está muito ligado aos instrumentos tradicionais portugueses e ao canto em pequenos grupos vocais amadores, e foi um pouco dessa realidade que quis também trazer para esta composição. Por último, sinto que este poema tem um ritmo implícito bastante forte e que, para mim, é bastante claro. Essa energia e esse ritmo teriam de estar presentes na composição, o que acabou por influenciar imenso todo o arranjo e, principalmente, me inspirou a construir a frase de viola de fado que acompanha quase todo o tema.
Este é o teu álbum de estreia. O que querias dizer artisticamente logo neste primeiro disco?
Este álbum de estreia é um reflexo da minha evolução enquanto artista. O álbum reflete muitas das experiências, sonoridades e aprendizagens que me marcaram, bem como a minha visão sobre a criação artística. Sempre tive um interesse enorme pela fusão entre elementos artísticos diferentes e acho extremamente importante que a arte possa estimular a reflexão, o pensamento e o sentido crítico. Foi tudo isso que quis deixar n’“Os Melros”, um álbum em que a poesia e a viola de fado ocupam um lugar central de um trabalho original e que, deliberadamente, convida o público a refletir sobre o que está a escutar em cada faixa.
A viola de fado costuma estar associada ao acompanhamento. Neste trabalho ela assume um papel mais central. Como pensaste esse espaço para o instrumento?
Conceptualmente, a minha intenção foi sempre que a poesia e a viola de fado ocupassem um lugar central neste trabalho e que se influenciassem de forma a que tanto a poesia como a música instrumental ganhassem força e significado com esta ligação. Em muitos casos, o meu trabalho passou por perceber o que era necessário a nível musical para potenciar as palavras e as ideias de cada poema, criando espaços nas músicas para explorar essas ideias musicais e dando também bastante espaço para que os atores convidados pudessem tirar o maior partido da poesia que compõe o álbum. Um exemplo claro desse pensamento é a faixa “Terra”, que foi gravada em simultâneo com o ator André Gago. Nessa faixa, todos os espaços em que a interpretação do ator ou a minha ganham mais destaque foram trabalhados ao pormenor e decididos em função do que potenciava o poema.
O disco junta música instrumental, poesia dita e um ensemble vocal. Como foi encontrar o equilíbrio entre todos esses elementos?
Encontrar o equilíbrio entre todos estes elementos foi um dos desafios mais interessantes deste trabalho. O processo de produção de todos os temas partiu da poesia e da música para viola de fado, e o facto de estes dois elementos ocuparem um lugar central foi determinante para a tomada de muitas decisões musicais neste álbum. Todos os outros elementos que surgem no álbum, a eletrónica, as percussões e o ensemble vocal, foram surgindo como um complemento a essa base, acrescentando valor e significado sem nunca ofuscar a poesia ou dificultar a sua perceção.
Convidaste intérpretes como André Gago, Maria João Luís, Pedro Lamares, Sandro Feliciano e Zeca Medeiros. O que cada um trouxe de diferente às palavras de João Monge?
Cada um dos convidados trouxe características muito próprias a este trabalho. São cinco artistas com bastante experiência que têm abordagens muito próprias à recitação de poesia, sendo que todas elas são diferentes e muitíssimo interessantes. Todos têm uma técnica muitíssimo trabalhada e um amplo conhecimento sobre a arte e sobre a poesia, o que lhes permite dar a cada poema exatamente aquilo de que o poema precisa para que possa ser bem compreendido por quem o ouve. Foi uma aprendizagem enorme para mim poder ver estes cinco artistas a dar voz à poesia do João Monge que faz parte deste álbum.
Obviamente, há características comuns aos vários artistas que convidei, mas vou tentar enumerar o que mais me impressionou na participação de cada um deles:
• André Gago: para além de recitar poesia muitíssimo bem, o André Gago canta bastante bem e é um artista extremamente criativo. Quando o convidei, a ideia inicial era apenas que ele recitasse o poema “Terra” para que eu, depois, compusesse a música sobre isso. Quando começou a preparar a gravação, o André Gago enviou-me um trecho da sua interpretação do poema que continha uma parte cantada por si, com uma melodia que criou sobre uma parte do poema. Isso acabou por fazer com que eu gravasse a música em simultâneo com ele, para que o pudesse acompanhar durante a gravação dessa secção que seria cantada, o que foi determinante para toda a dinâmica que conseguimos no tema “Terra”;
• Maria João Luís: a Maria João Luís tem uma maneira de recitar poesia que é muito própria, que conduz o ouvinte de uma forma muito especial e intensa pelo poema e que, por vezes, parece ser quase cantada. Foi exatamente por essa característica que a convidei para recitar “O Gesto” e “Águas da Terra”. A expressão e musicalidade que imprimiu a esses dois poemas transformou esses temas em obras muito especiais;
• Pedro Lamares: o Pedro Lamares consegue uma mistura muitíssimo interessante entre uma enorme noção musical da recitação de poesia e uma importantíssima preocupação pela perceção do poema. A forma como ele trabalha o ritmo, os silêncios, as dinâmicas e as pausas para dar intensidade às palavras é mesmo muito especial e ficou bem patente em “Quem Ama” e “Maçãs de Deus”;
• Sandro Feliciano: o Sandro tem uma voz jovem, mas que carrega consigo uma experiência sólida no uso artístico da palavra. Tem também um projeto a solo como cantautor e acho que todas essas experiências e conhecimentos se conjugaram no tema “Irmão”, ao qual conferiu uma interpretação e estética muito pessoais;
• Zeca Medeiros: o Zeca Medeiros tem uma voz inconfundível. Tem uma forma de interpretar que confere um peso muito especial às palavras, dando-lhes um timbre muito próprio. Isso ficou especialmente patente na sua interpretação do poema “Consulta”, tema no qual toda a composição e arranjo foram feitos a partir da sua interpretação.
7. As percussões de Iúri Oliveira e as vozes do ensemble dão uma dimensão quase cinematográfica ao álbum. Essa atmosfera foi pensada desde o início?
Essa atmosfera quase cinematográfica não estava pensada desde o início, mas foi surgindo no início do processo de produção do álbum, tendo-se cristalizado com a produção do tema “Os Melros”. Foi ao produzir esse tema que decidi que faria todo o sentido utilizar a textura do ensemble vocal e das percussões tradicionais, aliada a sonoplastias, como o som de pássaros, de tempestade, do mar ou de uma roda de bicicleta, entre outros, que permitissem ao ouvinte visualizar alguns dos elementos que fizeram parte do imaginário de construção de alguns dos temas.
8. O single “Os Melros” funciona como porta de entrada para o disco. O que representa esta peça dentro do conjunto do álbum?
Escolhi utilizar este poema para iniciar o álbum pelo facto de ser um poema que não deixa ninguém indiferente. É um poema que causa surpresa, que provoca sempre uma reação e que, acima de tudo, é uma prova de que a poesia não tem de ser sempre séria, densa ou inacessível. Ao fazer a ponte entre música e poesia, um dos meus objetivos era tornar estes dois mundos mais acessíveis a quem não costuma ler poesia ou ouvir música instrumental. Nesse sentido, acho que “Os Melros” são uma excelente porta de entrada para este trabalho.
Quem ouvir o álbum do início ao fim poderá perceber que este é também um tema que antevê um pouco do que se vai passar ao longo do álbum, e isso não acontece por acaso. De facto, muitas das decisões musicais deste álbum foram tomadas depois de estar definida a sonoridade dessa faixa e é também por isso, e por ter servido de inspiração ao longo de todo o álbum, que este tema inicia e fecha o disco.
Este projeto cruza tradição portuguesa com uma abordagem bastante livre. Sentiste que estavas a expandir os limites da viola de fado?
Sim, e essa foi uma das motivações para fazer este álbum. De facto, a viola de fado tem uma sonoridade muito própria e é um instrumento que, pelas suas características e utilização no fado, tem estado quase sempre associado a uma função de acompanhamento, mais especificamente, do acompanhamento do fado. Houve uma exceção a esta regra, o trabalho do professor Martinho da Assunção, um nome incontornável do fado que colocou a viola de fado com um papel solista em alguns contextos, mas, tradicionalmente, a viola de fado está, de facto, associada apenas a um papel de acompanhamento. Sempre achei que a viola de fado poderia ocupar um outro lugar que não apenas esse, e isso foi algo que quis desconstruir neste trabalho.
Por outro lado, muitas vezes acabei por pensar na viola de fado como um instrumento que, numa perspetiva de produção, pode ser muito versátil. Por exemplo, todos os baixos e simulações de cordofones tradicionais presentes na faixa “Os Melros” foram, na verdade, gravados numa viola de fado. Há também sons presentes em faixas como “Irmão” ou “Águas da Terra” que vêm da adição de efeitos diversos ao som deste instrumento. Tudo isso acabou por fazer parte da abordagem livre que quis ter neste trabalho e que, de certa forma, pode ajudar a expandir os limites deste instrumento.
O álbum chega na véspera do Dia Mundial da Poesia. A palavra sempre teve um papel importante no teu percurso musical?
Sim. Contudo, o peso da palavra no meu percurso intensificou-se, claramente, nos últimos anos. O facto de ter trabalhado em várias peças de teatro, entre elas “A Voz e a Alma”, de João Monge, ou “Entraria Nesta Sala”, de Ricardo Neves-Neves, e na composição de diversas músicas a partir de poesia de autores que muito admiro, como Amélia Muge, Mário Cesariny ou João Monge, entre outros, fez com que desenvolvesse não só um interesse especial pela poesia como também um cuidado muito grande ao trabalhar sobre ela. Atualmente, com o desenvolvimento deste projeto, sinto que esse interesse e esse cuidado se intensificaram ainda mais.
A ante-estreia acontece na Atmosfera M, em Lisboa. O que o público pode esperar desse momento ao vivo?
Para a ante-estreia deste álbum preparámos um espetáculo intimista que se centra na poesia e na viola de fado e em que não só reproduzimos alguns dos arranjos do álbum como também revelamos ao público algumas curiosidades sobre o processo de produção deste trabalho. Penso que o público que tiver a oportunidade de ver “Os Melros” ao vivo ficará agradavelmente surpreendido com o que estamos a preparar.
Depois de Os Melros, que caminhos gostarias de explorar a seguir na tua música?
Para já, o meu foco está em dar a conhecer este trabalho ao público e em perceber até onde este “Os Melros” poderá ir. Este foi um álbum pensado com a perspetiva de vir a ser apresentado ao vivo e, de facto, o meu foco está em levar este álbum até quem se possa interessar por aquilo que preparámos. Tenho a certeza de que, a partir de apresentações ao vivo deste álbum, irão surgir ideias e caminhos novos para explorar em próximos trabalhos.

