António Pinto Ribeiro revisita três décadas de pensamento em O Poder da Cultura

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Entre a viragem do milénio e a aceleração digital dos últimos anos, a forma como pensamos cultura mudou mais do que parece à superfície.

Nesse intervalo, acumulam-se camadas de discurso, revisões e contradições que raramente são revisitadas com distância crítica. É precisamente esse gesto que sustenta o novo livro de António Pinto Ribeiro, que regressa a textos escritos ao longo de quase trinta anos para reler o presente à luz do que ficou registado.

“O Poder da Cultura: Questões Permanentes”, com chegada às livrarias marcada para 26 de março, não funciona como uma simples compilação. Há aqui uma intenção clara de reorganizar pensamento, de testar a resistência de ideias antigas num mundo que já não é o mesmo, mas que continua a ser atravessado por muitas das mesmas tensões.

Três décadas de escrita como mapa crítico

O arco temporal do livro vai de 1996 a 2023. Não é apenas um detalhe cronológico. É um recorte que permite observar mudanças profundas nos modos de produção e circulação cultural.

Ao reunir estes textos, o autor constrói uma espécie de mapa crítico. Um percurso onde se percebe como certos temas persistem, mesmo quando o contexto muda radicalmente. A cultura surge como testemunho desses deslocamentos, mas também como ferramenta para os interpretar.

Memória como instrumento de leitura do presente

Um dos eixos centrais da obra é a relação entre cultura e memória. Não como arquivo passivo, mas como mecanismo ativo de compreensão.

A memória aparece aqui como algo que permite ligar tempos distintos. Ajuda a perceber continuidades, rupturas e também silêncios. E talvez seja nesse ponto que o livro ganha mais densidade, ao mostrar que pensar o presente exige sempre uma negociação com o passado.

O impacto das transformações globais

As últimas décadas foram marcadas por mudanças estruturais. Tecnologias digitais, sociedade em rede, novas formas de mediação da comunicação. Tudo isso alterou a forma como o conhecimento circula e como as pessoas se relacionam.

Ao mesmo tempo, o cenário geopolítico tornou-se instável. Democracias pressionadas, fluxos migratórios a redesenhar o tecido social europeu, identidades em constante reconfiguração. O livro não tenta simplificar este panorama. Antes observa como a cultura reage, absorve e reflete essas tensões.

Do conceito de cultura ao “cultural”

Um dos momentos mais relevantes do ensaio surge quando o autor questiona o próprio termo “cultura”. Considera-o frágil, ambíguo, muitas vezes insuficiente para dar conta da complexidade atual.

Inspirado pelo pensamento de Arjun Appadurai, propõe o conceito de “o cultural”. Um sistema aberto, em movimento, onde diferentes histórias, identidades e práticas coexistem e entram em conflito. Não há aqui estabilidade. Há fluxo, porosidade e negociação constante.

Este deslocamento conceptual não é apenas teórico. É uma tentativa de ajustar a linguagem ao mundo real, que já não cabe em definições rígidas.

No conjunto, o livro constrói-se como um espaço de pensamento em movimento. Sem conclusões fechadas, sem respostas definitivas. Fica a sensação de que a cultura, longe de ser um território estável, continua a ser um campo em disputa, onde cada geração reescreve as suas próprias perguntas.

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