Festival Futurama 2026 espalha-se pelo Baixo Alentejo e transforma território em criação viva

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Entre maio e o calor seco que começa a instalar-se no sul, o Festival Futurama 2026 regressa ao Baixo Alentejo com uma proposta que vai além da programação tradicional. Não se trata apenas de assistir. Trata-se de acompanhar um processo que já vem de trás, construído com escolas, associações e artistas no terreno, e que agora se torna visível.

 

Durante três fins de semana, entre Beja, Mértola e Alvito, o festival assume-se como um ecossistema cultural ativo, onde a criação nasce do contacto direto com o território. Entrada livre, geografias distintas, linguagens cruzadas. A promessa não está só nos nomes, mas no que acontece entre eles.

Um festival que começa muito antes de abrir portas

O Futurama não aparece do nada em maio. Chega já com meses de trabalho acumulado. As residências artísticas e o programa Artistas nas Escolas funcionam como base estrutural de tudo o que se vê depois.

Projetos desenvolvidos com alunos do Instituto Politécnico de Beja, da Escola Secundária Diogo de Gouveia e da Escola Profissional de Alvito ganham forma em colaboração com artistas como David Infante, Carincur e Filippo Fiumani. Ao mesmo tempo, surgem criações com a CerciBeja e a Universidade Sénior da ALSUD, através de Horácio Frutuoso e Ana Baleia.

Há aqui um detalhe importante. Não é só participação. É coautoria. E isso muda completamente o peso de cada obra apresentada.

Beja abre caminho com exposições, concertos e pensamento crítico

O arranque acontece a 15 de maio em Beja com três inaugurações que definem logo o tom. Fotografia, artes visuais e uma abordagem crítica à saturação da imagem contemporânea.

O dia fecha com João Spencer, através do projeto t.204, a apresentar Vale, um disco que carrega mais de uma década de processo criativo. No dia seguinte, o ritmo muda. Workshop aberto à comunidade, instalação sonora de Carincur e um dos momentos mais curiosos do programa.

O projeto Cantexto leva seis escritores para dentro da música coral alentejana. Yara Nakahanda Monteiro, Bruno Vieira Amaral, Nástio Mosquito, Patrícia Reis, Hugo van der Ding e Cristina Taquelim cruzam palavra e tradição num formato difícil de encaixar, mas fácil de querer ver.

À noite, Sara Inês Gigante entra em cena no Pax-Julia com Popular. Um espetáculo que mexe com a relação entre artista e público. Quem é que valida quem? E até onde é que essa fronteira aguenta?

Mértola aprofunda a relação entre corpo, comunidade e criação

A 22 de maio, o foco desloca-se para Mértola, mais concretamente para Algodôr. Aqui, o festival ganha outro ritmo. Mais físico, mais ligado ao corpo e à presença.

Ana Baleia apresenta o resultado da sua residência com a Universidade Sénior da ALSUD, enquanto Mariana Tengner Barros trabalha com jovens da ginástica acrobática e alunos de música. A peça nasce desse encontro improvável entre disciplina, expressão e contexto local.

O dia termina novamente com o Cantexto, agora interpretado por grupos de cante alentejano do concelho. A repetição do formato não soa a repetição. Soa a evolução.

Alvito fecha com debate, instalação e um último gesto coletivo

O encerramento acontece a 30 de maio em Alvito e começa de forma pouco habitual. Um debate público sobre liberdade de criação artística, a partir do Artigo 42.º da Constituição, no ano em que celebra meio século.

Depois, Filippo Fiumani apresenta uma instalação criada com alunos da Escola Profissional de Alvito, cruzando expressionismo abstrato com materiais descartados. Existe aqui uma tensão clara entre estética e comentário social.

O último momento acontece nas Grutas do Rossio. O Cantexto regressa uma última vez, agora com a participação do grupo Rama Verde. Um fecho que não é exatamente um fim, mas mais uma camada de continuidade.

Um projeto que não desaparece depois do festival

Mesmo fora das datas oficiais, o Espaço Futurama em Beja continua ativo. Funciona como núcleo permanente, onde residências, encontros e processos criativos continuam a acontecer ao longo do ano.

Esse detalhe explica muita coisa. O festival não é um evento isolado. É apenas o momento em que tudo se torna visível.

E talvez seja aí que está a diferença. Não no cartaz. Mas no tempo que cada ideia teve para crescer antes de chegar ao público.

Datas
Beja: 15 e 16 de maio
Mértola: 22 de maio
Alvito: 30 de maio

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