O regresso dos Sanctus Nosferatu não soa a exercício de nostalgia nem a simples continuação de um percurso interrompido. “1.E4” aparece como uma jogada calculada, pesada e desconfortável, capaz de empurrar a banda açoriana para um território mais atmosférico, conceptual e emocionalmente sufocante sem perder a agressividade que sempre definiu o projeto. Existe aqui uma sensação de transformação real. Não apenas sonora, mas também simbólica.
Mais de duas décadas depois da formação nos Açores, os Sanctus Nosferatu continuam a mover-se longe dos atalhos fáceis do metal extremo. Nesta conversa, a banda fala sobre manipulação social, isolamento insular, tensão psicológica, o peso do underground e a construção conceptual do novo EP. Pelo meio surgem referências a xadrez, física quântica, vórtices temporais e à necessidade constante de evitar o piloto automático criativo. “1.E4” pode ser apenas a primeira jogada. Mas percebe-se rapidamente que há muito mais em movimento por trás deste novo capítulo.

“1.E4” usa o xadrez como metáfora para manipulação e controlo social. Em que momento perceberam que esse conceito fazia sentido para representar a nova fase da banda?
Percebemos isso quando iniciámos o novo processo de composição após o SAMCA. O simbolismo do xadrez encaixava nas ideias que estávamos a desenvolver para esta fase da banda, pela sua dimensão estratégica, fria e calculista, onde cada movimento pode representar poder, manipulação, sacrifício ou controlo. Sentimos que isso refletia as dinâmicas humanas e sociais que queríamos abordar.
“1.E4” acabou por funcionar como um ponto de partida conceptual. Não queríamos usar o xadrez apenas como estética, mas sim como metáfora para estruturas de influência e conflito psicológico. Ao mesmo tempo, esse conceito também coincidiu com uma fase mais madura da banda. Musicalmente e emocionalmente havia uma abordagem mais consciente, mais intensa e mais atmosférica, e o universo simbólico do xadrez ajudou-nos a organizar essa identidade de forma muito coerente.
O som deste novo single parece mais atmosférico e cinematográfico sem perder agressividade. Essa mudança aconteceu de forma natural ou foi uma decisão consciente dentro da composição do próximo EP?
Foi um processo bastante natural, embora não totalmente inconsciente. Quando começámos a trabalhar nos novos temas, havia uma intenção clara de expandir a dimensão atmosférica da banda, mas sem perder a agressividade. Não se tratou de uma mudança radical planeada ao detalhe, mas sim da evolução da sonoridade da banda.
À medida que as composições foram ganhando forma, percebemos que esses elementos enriqueciam a música e criavam um impacto emocional mais forte. Em vez de forçar essa direção, optámos por deixar que o próprio processo de escrita nos guiasse. O resultado acaba por refletir esse equilíbrio entre peso e atmosfera, que para nós é algo cada vez mais natural na forma como compomos.
Depois de mais de vinte anos de percurso, o que sentem que ainda distingue Sanctus Nosferatu dentro do metal extremo português?
Apesar dos mais de vinte anos de existência, a banda continua a necessitar de fortalecer o seu crescimento no que ao metal nacional diz respeito. Por diversos motivos tivemos um hiato de vários anos, o que retardou esse processo e objetivo.
Estamos perfeitamente conscientes de que a banda continua a ocupar um espaço muito underground dentro do panorama nacional e que ainda estamos a procurar consolidar o nosso trabalho e alcançar mais pessoas. O percurso tem sido construído de forma lenta, muitas vezes discreta, mas sempre com dedicação genuína à música e ao conceito da banda.
Mesmo sem grande projeção nacional, continuamos interessados em evoluir artisticamente e em criar algo com personalidade própria. Neste momento sentimos que ainda estamos numa fase de afirmação e cimentação do projeto, mas com objetivos muito claros daquilo que queremos representar.

Existe uma sensação de tensão constante em “1.E4”, quase claustrofóbica. Queriam provocar desconforto emocional no ouvinte ou isso surgiu organicamente da música?
O objetivo assenta na mistura de ambos, embora existisse desde o início a intenção de criar uma atmosfera emocionalmente intensa.
Em “1.E4” quisemos criar uma sensação de pressão, inquietação e desconforto psicológico marcado pela crítica social, permitindo ter uma base que serviria para o aparecimento da nossa personagem central, SAMCA. Personagem essa que necessitava de um impulso e estímulo para tentar libertar-se do triplo vórtex temporal em que se encontra.
Achamos interessante quando a música consegue provocar uma reação emocional menos confortável no ouvinte, porque isso torna a experiência mais intensa e mais humana. Nem toda a arte precisa de ser acolhedora. Às vezes o impacto vem precisamente dessa tensão e desse confronto emocional.
A banda nasceu nos Açores em 2002. Até que ponto crescer longe dos grandes centros influenciou a identidade sonora e conceptual da Sanctus Nosferatu?
Nascer nos Açores inevitavelmente tem o seu peso na identidade da banda, até pela própria sensação de isolamento e introspeção que viver numa ilha pode transmitir. Mas, ao mesmo tempo, vivemos numa era de globalidade, onde as barreiras geográficas já não têm o mesmo impacto que tinham no passado.
Apesar de residirmos num espaço fisicamente confinado, sempre sentimos que era importante absorver aquilo que o mundo tem para oferecer, musicalmente, artisticamente e até a nível conceptual. Partimos da nossa singularidade, da experiência particular de viver nos Açores, mas procuramos constantemente a pluralidade de influências e visões exteriores para incorporar tudo isso no nosso trabalho.
Acho que essa combinação entre isolamento e abertura acabou por moldar bastante a banda. Existe uma componente mais atmosférica e introspectiva que talvez venha do contexto insular, mas também uma vontade de não ficarmos fechados numa identidade regional ou limitada. Preferimos olhar para a música como algo universal, onde diferentes influências podem coexistir sem perder autenticidade.
O underground extremo vive muitas vezes preso ao revivalismo. Sentem que hoje existe espaço real para bandas mais conceptuais e atmosféricas dentro do metal pesado?
Existe espaço, mas talvez seja um espaço mais desafiante do que antigamente. O underground sempre teve uma conexão forte com a tradição, e isso faz parte da identidade do metal extremo. Existem sonoridades, estéticas e valores que continuam importantes porque marcaram gerações.
Mas quando o revivalismo se torna apenas repetição, a cena corre o risco de perder capacidade de surpresa e evolução. Contudo, cada pessoa é livre de viver a música como mais lhe agrada e isso deve ser respeitado.
Vejo cada vez mais pessoas interessadas em experiências imersivas e emocionais dentro do metal. Bandas conceptuais e atmosféricas conseguem criar ligações muito coesas com o público, não só pela agressividade, mas também pela construção de ambiente, narrativa e identidade artística.
Talvez não sejam projetos tão imediatos, mas com o passar do tempo poderão deixar a sua marca. Acho que hoje existe espaço para isso, especialmente porque as fronteiras entre géneros estão mais abertas do que antes. O desafio é criar e manter a autenticidade. No fim, o underground continua vivo, quer com bandas dispostas a arriscar e a expandir o metal extremo, quer com bandas que optem por sonoridades ditas mais tradicionais e puras.
Como funciona atualmente o processo criativo entre os diferentes membros da banda? “1.E4” nasceu primeiro de um riff, de uma ideia conceptual ou de outra coisa completamente diferente?
O processo criativo da banda assenta na nossa pluralidade enquanto músicos. Cada um de nós tem como base estilos musicais diferentes, dentro e fora do metal.
Tentamos conciliar e solidificar diversas vertentes, o que por vezes torna o processo de composição um pouco demorado. Contudo, esse processo moroso não é um entrave para nós, mas sim um desafio agradável e constante para tornar a nossa sonoridade consistente.
“1.E4” desenvolveu-se tendo por base o riff inicial, um riff com groove e que permitia diversas dinâmicas, oscilando entre um sentimento de fúria e um sentimento de agonia, culminando num refrão que procura não apenas um sentimento de libertação, mas também a constante demanda pela verdade.
A produção de Tiago Alves parece ampliar bastante a dimensão épica do tema. O que procuravam especificamente na sonoridade deste novo trabalho?
Conhecemos o Tiago Alves, dos Waveyard Studios, há alguns anos e sempre estivemos atentos ao seu trabalho, enquanto músico e produtor. Foi uma escolha fácil e mais do que acertada.
Procurávamos uma sonoridade que envolvesse algumas tendências modernas com aquele toque mais old school, para enfatizar as dinâmicas existentes nos temas que vão compor o nosso EP.
Ficámos muito satisfeitos com o resultado final. A simbiose entre o produtor e a banda foi perfeita.
O lyric video e toda a componente visual reforçam muito o lado simbólico da música. Para vocês, a estética visual tem o mesmo peso da composição sonora?
A composição sonora continua a ser o mais importante na música. Contudo, nos dias que correm, existem diversas bandas e músicos com altíssima qualidade, músicas com elevado grau de composição e técnica, tornando o mercado extremamente competitivo.
A procura de elementos, sejam eles visuais ou não, que possam destacar e cativar a atenção do público, é uma mais-valia. Uma banda com uma composição sonora consistente aliada a uma componente visual singular e marcante consegue ter o melhor dos dois mundos, tornando essa simbiose uma tarefa muito desafiadora, mas que no final irá produzir resultados satisfatórios.
O título “1.E4” remete para uma jogada inicial clássica no xadrez. Este single representa também uma espécie de primeira jogada estratégica para o futuro da banda?
A designação “1.E4” refere-se à primeira jogada. O “e” representa a fila horizontal e o “4” a quarta casa para a qual o peão avança.
“1.E4” acarreta o simbolismo da primeira jogada de Garry Kasparov contra Veselin Topalov, em 1999, naquela que é supostamente a melhor partida de xadrez de sempre. É o avanço do peão, de forma corajosa e arrojada, para o meio do tabuleiro, à frente da casa do rei.
“1.E4” é sem dúvida uma mudança na sonoridade da banda e, com isso, o estabelecer de novos objetivos.
O próximo EP vai aprofundar esta componente mais social e psicológica das letras ou “1.E4” funciona como um caso isolado dentro do novo material?
A componente lírica enfatizada no tema “1.E4” serve de base para o desenvolvimento conceptual do EP. É essa manipulação social e psicológica que faz ressurgir a personagem SAMCA, elemento fundamental em toda a temática desenvolvida pela banda.
Nos restantes temas exploramos o misticismo, física quântica, astronomia, instintos de sobrevivência e paradoxos. Em suma, “1.E4” marca o início de uma viagem paradoxal e “vortexiana” ao autoconhecimento.
Depois de tantos anos de percurso, ainda existe espaço para surpresa dentro da própria banda ou sentem que agora conhecem demasiado bem a identidade da Sanctus Nosferatu para serem apanhados desprevenidos?
Depois de tantos anos, obviamente já existe uma identidade sólida dentro dos Sanctus Nosferatu. Contudo, essa identidade ainda falta ser vivenciada pelo público em geral.
Estamos numa nova fase e queremos muito partilhar tudo aquilo que envolve a banda. Sabemos quais são os elementos que nos definem neste momento, em termos de composição e visão artística. Mas acho que isso não elimina a surpresa. Pelo contrário, dá-nos uma base mais consciente para explorar novos rumos sem perder a essência.
As maiores surpresas hoje talvez não venham de tentar reinventar tudo, mas sim da forma como certas ideias evoluem naturalmente entre nós. Ainda existe esse fator imprevisível, porque cada membro traz vivências, influências e estados de espírito diferentes.
Se uma banda deixa de conseguir surpreender-se a si própria, corre o risco de entrar em piloto automático. E isso é algo que tentamos evitar. Preferimos evoluir organicamente, mantendo identidade, mas sem transformar a nossa música numa fórmula fechada.

