Existem discos que parecem nascer diretamente de um lugar onde ainda existe choque. Não aquele sofrimento distante que já virou narrativa confortável, mas uma dor ainda viva, meio impossível de organizar completamente. O novo trabalho de Hyd carrega muito dessa sensação.
Hold Onto Me Infinity foi gravado na Islândia e constrói-se em torno de perdas profundamente pessoais. A morte de SOPHIE em 2021 continua a pairar sobre o álbum de forma quase fantasmagórica, mas existe também outra tragédia recente: o irmão de Hyd morreu em 2024 vítima de um atropelamento seguido de fuga.
Tudo isso atravessa o disco inteiro.
Mas curiosamente, o álbum não soa derrotado. Existe peso emocional, claro, mas também uma procura constante por movimento, por intensidade física e até por momentos de euforia estranha. A produção aposta muito na bateria e nas texturas eletrónicas agressivas, criando uma sensação que oscila entre o universo futurista da PC Music e algo muito mais sombrio escondido por baixo da superfície.
Em vários momentos, o álbum parece querer transformar o corpo numa extensão do luto. Não apenas ouvir tristeza, mas senti-la fisicamente através do impacto das batidas, das frequências e das explosões emocionais que aparecem sem aviso.
A faixa “Makeover” acaba por ser um dos momentos mais difíceis de ignorar. A música inclui uma gravação real da voz de SOPHIE, tornando tudo ainda mais íntimo e desconfortavelmente humano. Não soa como homenagem calculada. Soa mais a memória preservada dentro da própria estrutura do som.
E talvez seja precisamente aí que Hold Onto Me Infinity ganha força.
Muitos discos sobre perda acabam presos à contemplação ou ao minimalismo emocional. Hyd segue outro caminho. Existe caos, volume, textura digital, excesso e até momentos quase clubbing. Como se dançar também pudesse funcionar como mecanismo de sobrevivência.
No fundo, o álbum parece menos interessado em “superar” a dor e mais em aprender a continuar a existir dentro dela.


