Num momento em que a música circula à velocidade de um scroll e a opinião cabe num story de quinze segundos, o espaço para pensar tornou-se raro.

O lançamento deixou de ser apenas um objeto artístico para se tornar também conteúdo imediato, fragmentado, competitivo. A questão não é apenas quem escreve sobre música, mas como e para quê.
A mediação cultural sempre foi um território instável, mas hoje parece suspensa entre dois extremos: o comentário instantâneo e a promoção disfarçada de entusiasmo. O que se perdeu, e o que está a nascer no lugar desse vazio?
O encolhimento dos espaços tradicionais
Durante décadas, a crítica encontrou casa em jornais, revistas especializadas e suplementos culturais. Havia tempo, orçamento e, sobretudo, editores que acreditavam na importância de contextualizar um disco no seu momento histórico. Publicações internacionais como a Mojo ou a Uncut continuam a apostar nesse modelo, enquanto em Portugal os espaços impressos diminuíram drasticamente.
A crise dos media não é apenas económica, é estrutural. Redações mais pequenas significam menos especialização. O jornalista cultural tornou-se multitarefa. A crítica aprofundada, que exige escuta repetida e pesquisa, compete agora com métricas de cliques. O resultado é previsível: textos mais curtos, menos arriscados, mais alinhados com o ciclo promocional.
A aceleração digital e o império da opinião rápida
As redes sociais democratizaram a palavra. Qualquer ouvinte pode publicar uma opinião segundos depois de um lançamento. Esse fenómeno trouxe diversidade e frescura, mas também ruído. A linha entre crítica e reação emocional tornou-se difusa.
Plataformas de agregação como a Metacritic transformaram a avaliação num número médio. A nuance dilui-se. O discurso crítico adapta-se a formatos comprimidos, listas, classificações, frases de impacto. A pergunta impõe-se: quando tudo é opinião, quem assume a responsabilidade de contextualizar, contrariar consensos, desafiar narrativas promocionais?
Entre a independência e a proximidade excessiva
Portugal tem uma cena musical próxima, quase familiar. Artistas, promotores e jornalistas cruzam-se nos mesmos concertos, nos mesmos festivais. Essa proximidade cria cumplicidade, mas pode gerar autocensura subtil. Criticar negativamente implica risco relacional num mercado pequeno.
Ao mesmo tempo, surgem plataformas digitais independentes que tentam resgatar a análise longa e argumentada. Exemplos internacionais como o The Quietus mostram que ainda existe público para reflexão densa e crítica exigente. O desafio em Portugal é sustentabilidade. Quem financia a independência? Como manter distância crítica num ecossistema frágil?
Transformação, não extinção
Talvez a pergunta inicial esteja mal formulada. A crítica não desapareceu; deslocou-se. Está em podcasts, newsletters, vídeos longos, comunidades fechadas. Mudou o formato, não necessariamente a função. Ainda há quem escreva com rigor, contextualize carreiras, questione tendências e arrisque posições impopulares.
Importa lembrar que Portugal já teve, e ainda tem, jornalistas musicais que marcaram gerações, que ensinaram a ouvir melhor e a discutir com argumentos. Um país com essa tradição não perde de um dia para o outro a capacidade de analisar a sua própria música. Alguns continuam ativos, fiéis a uma linha exigente, recusando a facilidade do aplauso automático. São menos visíveis num ecossistema dominado pelo imediatismo, mas persistem. A crítica pode mudar de forma, pode migrar de plataforma, mas enquanto existir quem escreva com independência e consciência histórica, continuará a cumprir o seu papel de memória e confronto cultural.
