O som das ilhas está a mudar. Já não é apenas tradição, nem só memória. É presente, é futuro, é reinvenção. Entre guitarras elétricas, sintetizadores e vozes que recusam ficar presas ao folclore, os Açores afirmam-se como um território criativo que começa a ganhar espaço no mapa cultural português.

 

 

 

Mantra Nostrum: identidade e experimentação

Entre os nomes que lideram esta mudança, Mantra Nostrum merece destaque. A banda nasceu nos Açores com uma proposta estética singular. Letras de Maria Carolina e composições de Paulo Bettencourt criam um diálogo entre poesia e som, entre raízes e vanguarda. Canções como Porta ao Lado e Deuses da Oliveira revelam uma escrita que mistura intimismo e crítica social, com arranjos que oscilam entre guitarras densas e atmosferas eletrónicas.
É música que convida à viagem, mas não para fugir: para mergulhar.

“Ele é terra. Ela é mar. Sob um céu a sul, transportam um universo musical que transcende o tempo e o espaço.”

Romeu Bairos: O Açoriano Que Pôs as Furnas no Mapa… Musical!

Se os Açores já eram conhecidos pelas suas paisagens de cortar a respiração e pelas caldeiras a fumegar, Romeu Bairos veio provar que também há talento a borbulhar nas Furnas. Com um sotaque que derrete até o mais teimoso continente, Romeu pegou nas tradições micaelenses, deu-lhes um banho de modernidade e serviu-as em forma de canção — e que banquete! O seu álbum “Romê das Furnas” é tão autêntico que, ao ouvir, quase sentimos o cheiro a cozido e o som das vacas a mugir ao fundo.

Mas Romeu não é só tradição: é irreverência, é humor, é aquele amigo que anima qualquer arraial. Mistura fado, folclore e pop como quem mistura inhame com chouriço — e resulta sempre bem. Se ainda não ouviu, prepare-se: depois de Romeu Bairos, vai querer marcar férias nos Açores… nem que seja só para tentar apanhar um concerto nas Furnas!

 

Entre vozes e paisagens

Sara Cruz é uma dessas vozes que não se contenta com fronteiras. Cresceu em São Miguel, entre neblinas e mar, e transformou silêncio em canções. O álbum Fourteen Forty-Five, produzido por Cristóvam, é prova disso: folk, pop e indie num registo que soa íntimo e global.
Cristóvam, por sua vez, é mais do que produtor. É cantor, compositor, contador de histórias. A sua música carrega ecos do Atlântico e tem viajado para lá das ilhas.
Ao lado deles, surgem Maria Bettencourt, Marisa Oliveira, Luís Alberto Bettencourt — referência histórica que regressa com novas composições — e Aníbal Raposo, poeta e cantautor que mantém viva a tradição da palavra.
A nova geração também começa a ganhar espaço: Samuel Pacheco, pianista e cantor da Povoação, brilhou no The Voice Portugal; King John explora o rock alternativo e o folk sintetizado; João Moniz já passou por festivais nacionais com temas originais. Estes nomes mostram que a música açoriana não é estática: é movimento.

Eventos que se destacam em 2026

  • Maré de Agosto (Santa Maria) – 21 a 23 de agosto
    O mais antigo festival dos Açores, realizado na Praia Formosa, com o palco a poucos metros do mar. Mantém a aposta na diversidade e na world music, trazendo artistas que cruzam fronteiras.
  • Tremor (São Miguel) – 24 a 28 de março
    Festival que mistura música, território e comunidade. Concertos em grutas, trilhos sonoros e residências artísticas.
  • Cordas World Music Festival (Ilha do Pico) – setembro
    Celebra os cordofones e coloca os Açores no mapa da world music.
  • Azores Burning Summer (São Miguel) – final de agosto
    Na Praia dos Moinhos, Porto Formoso, com ritmos globais e consciência ambiental.
  • POP Festival (São Miguel) – outubro
    Festival internacional de artes performativas e ofícios do espetáculo.
  • Monte Verde (São Miguel) – agosto
    Festival popular, mas criticado pela falta de identidade curatorial.

A cena metal açoriana: força e diversidade

Se há um género que desafia o isolamento e constrói identidade, é o metal. Nos Açores, esta cena é mais do que nicho: é resistência, é comunidade. O Museu do Heavy Metal Açoriano (MHMA) tem sido o motor desta afirmação, com a compilação Azores & Metal, que já vai na 4ª edição e lançou o primeiro vinil histórico para a cena underground açoriana.

Bandas em destaque:

  • A Dream of Poe – Doom Metal com projeção internacional (Ilha Terceira).
  • Anomally – Death/Thrash/Gothic com peso e melodia (Ilha Terceira).
  • Askara – Grindcore puro, velocidade e caos (São Miguel).
  • Beyond Confrontation – Hardrock/Metal com energia crua (Ilha Terceira).
  • Blackmass – Black Metal com atmosferas rituais (São Miguel).
  • Blasph3my – Nu Metal com groove agressivo (São Miguel).
  • Carnification – Death Metal visceral, riffs cortantes (São Miguel).
  • Crossfaith – Rock Progressivo açoriano, complexidade e emoção (São Miguel).
  • Dark Emotions – Thrash Metal clássico, riffs rápidos (São Miguel).
  • Death ParadoX – Metal experimental que desafia convenções (São Miguel).
  • Deep Coma – Schizo Metal, fragmentos sonoros tensos (Ponta Delgada).
  • Digital Tragedy – Melodic Metal, melodia e peso em harmonia (São Miguel).
  • Finding Sanity – Metal alternativo, raiva e introspeção (São Miguel).
  • In Peccatum – Gothic/Doom Metal, beleza sombria (São Miguel).
  • Mournolith Abyss – Doom/Death Metal, gravidade sonora (São Miguel).
  • Profeta Morbus – Death Metal brutal, velocidade sem concessões (São Miguel).
  • Rheuma – Metal alternativo/progressivo, técnica e experimentação (São Miguel).
  • Damage Device – Heavy Metal clássico, riffs que ecoam tradição (São Miguel).
  • Dust Project – Metal alternativo com texturas modernas (São Miguel).
  • The Absolute End – Metal experimental, som como experiência sensorial (São Miguel).
  • Aemaerth – Metal extremo, projeto internacional com raízes açorianas (São Miguel).
  • M1ke – Projeto solo de metal alternativo (São Miguel).
  • Kevin Douglas – Metal alternativo com influências globais (São Miguel).

Cada banda carrega uma estética própria, mas todas partilham a mesma urgência: fazer ouvir a voz das ilhas num género que vive da intensidade.

Artistas emergentes dos Açores: Hip Hop, Pop e DJs

A nova geração musical açoriana está a ganhar força e visibilidade. Entre rimas, beats, sintetizadores e fusões experimentais, os Açores afirmam-se como um território criativo que vai muito além da tradição.

Hip Hop: Madruga (trap e rap alternativo), Joana Pacheco (flow com técnica jazz), Oestrela (trap sujo), Dusk (hip hop com fusão jazz).
Pop e Indie: We Sea (indie-pop com estética anos 80), Warupmaria (projeto alternativo com influências góticas), Samuel Pacheco (pianista e cantor revelação).
DJs e Eletrónica: FLiP (DJ e produtor experimental), Coletivo Atelineiras (mistura música e artes visuais).

Estes nomes já marcaram presença em festivais como Tremor e representam a diversidade e inovação que define a música açoriana contemporânea.

Análise cultural: identidade e futuro

A música nos Açores é mais do que entretenimento. É identidade, é economia, é política cultural. Cada festival atrai visitantes, gera impacto local, cria oportunidades para artistas e técnicos. Mas também levanta questões: como equilibrar tradição e inovação? Como evitar que a globalização apague sotaques e sonoridades únicas?
Os Açores vivem um paradoxo interessante: isolamento geográfico e hiperconectividade digital. A internet permite que um tema gravado numa sala improvisada em São Miguel chegue a playlists globais. Mas a distância física continua a pesar nos custos, na logística, na visibilidade. É aqui que os festivais entram como catalisadores: não apenas para mostrar música, mas para criar ecossistemas criativos.
Há sinais positivos: escolas de música que se adaptam, jovens que investem em produção independente, associações que criam residências artísticas. Mas também há desafios: falta de infraestruturas para grandes eventos, custos elevados, necessidade de políticas culturais consistentes. A resposta está na criatividade — e nisso os Açores têm vantagem. Porque aqui, a paisagem não é só cenário: é matéria-prima para a imaginação.