Há discos que não entram de rompante. Aproximam-se devagar. Of Fragility and Impermanence é um deles. A música não pede atenção imediata

Pede tempo, escuta e disponibilidade. No dia 28 de fevereiro, em Lisboa, André Carvalho apresenta um trabalho que se tornou um dos pontos mais consistentes do jazz português recente, não por excesso, mas por contenção.

Um disco que cresce no silêncio

Editado em novembro, o álbum afirmou-se sem ruído promocional. Cresceu através da escuta atenta e da circulação natural entre músicos, críticos e público. A inclusão nas listas de Melhores do Ano da jazz.pt confirmou uma perceção que já vinha a ganhar forma.

A música trabalha a partir de ideias simples e exigentes. Fragilidade. Perda. Memória. Transformação. Cada tema funciona como um espaço próprio, onde o silêncio não é intervalo, mas matéria. A escrita evita narrativas fechadas e confia no tempo como elemento estrutural.

Entre escrita, gesto e suspensão

Não há pressa em chegar a algum lado. O disco vive da suspensão, do gesto mínimo, da escuta interna entre os músicos. A linguagem cruza o jazz com a criação erudita contemporânea sem nunca se fixar num território confortável.

É uma música que se constrói mais pelo que sugere do que pelo que afirma. Onde o vazio tem peso. Onde cada entrada instrumental carrega intenção. Não há ornamento. Há densidade contida.

O quinteto como espaço coletivo

Para a apresentação em Lisboa, André Carvalho reúne um quinteto que traduz com precisão essa ética de escuta. José Soares no saxofone, Raquel Reis no violoncelo, José Diogo Martins no piano, André Carvalho no contrabaixo e João Hasselberg na eletrónica.

A relação entre escrita e improvisação é orgânica. Não há hierarquia fixa. As decisões surgem no momento, em função do coletivo. Às vezes a música avança. Outras vezes recua. Esse equilíbrio instável é parte essencial do discurso.

Lisboa como lugar de proximidade

O concerto acontece no BOTA Anjos, um espaço que favorece a proximidade e a atenção. A música acontece perto. Sem distância confortável. Como uma experiência partilhada.

Antes disso, no dia 21 de fevereiro, André Carvalho apresenta também música original inspirada em Jerusalém, de Jerusalém, na Casa Jardim da Estrela. Um projeto que cruza literatura e som, palavra e silêncio, e que prolonga a mesma ideia de escuta e fragilidade que atravessa Of Fragility and Impermanence.

Não é apenas um conjunto de concertos. É um percurso em aberto. Uma música que prefere ficar em suspensão, como se ainda estivesse a acontecer depois do último som.