Uma canção nasce num gesto antigo. As mãos, o couro cabeludo, a conversa baixa. E de repente 2026 parece logo ali.  Tufulin” a 16 de janeiro

 

 

No café, antes da música

Entro num café pequeno. Lisboa ainda húmida, o chão escuro de chuva antiga. Há um cartaz torto colado com fita, metade descolada, anuncia uma semana cultural qualquer, letras já cansadas. Cheira a café queimado e a livros usados. Um rádio antigo murmura. Não presto atenção. Depois presto.

A notícia chega assim, sem cerimónia.
Karyna Gomes lança single.
Anuncia disco novo.
Brevemente. Essa palavra que não tem data e mesmo assim pesa.

Abro o caderno. Escrevo mal. Apago. Volto atrás.

TUFULIN, dito devagar

O single chama se TUFULIN. Digo em voz baixa, como quem testa o som. Tufulin. Parece vento curto. Parece pente a deslizar. Há coisas que se percebem mais pelo corpo do que pela cabeça.

A canção nasce de um gesto simples. Pentear o cabelo.
Antes dos salões. Antes do digital. Antes de tudo o que hoje nos acelera.
Sentar. Tocar. Falar.

Karyna chama Alana Sinkëy para a conversa. Não é um dueto apenas. É um reencontro de vozes que já se conheciam antes de se ouvirem.

Um ritual que ainda respira

Há algo de muito físico aqui. As mãos no cabelo. O couro sensível. O tempo que abranda.
Em comunidades africanas, pentear foi o primeiro espaço de conversa entre mulheres. O primeiro chat, sim. Mas sem ecrã. Com cheiro a óleo. Com paciência.

Fala se de segredos. De medos pequenos. De histórias grandes.
Fala se baixo porque há coisas que só existem assim.

Este single não romantiza. Recorda.
Mais do que estética, há identidade. Um fio que passa de geração em geração. Um saber que não cabe em arquivos.

No meio da música portuguesa atual, tão cheia de pressa, isto soa a pausa. Uma pausa quente.

Portugal, agora, neste ponto

Caminho pela rua. As portas rangem. Um elétrico passa, lento. Alguém deixa um livro num parapeito. Alguém canta mal numa janela.
É assim que a cultura acontece. Aos bocados. Sem aviso.

Em Portugal, as escolhas culturais estão a mudar. Não é ruptura. É deslocação. Um corpo que se mexe para encontrar outra posição.
Há tendências culturais que não aparecem em gráficos. Aparecem nestes gestos. Nesta música que olha para trás para poder ir.

Karyna lembra que esta prática ainda vive, embora menos frequente. Como muitas coisas que sobrevivem em silêncio.
E talvez por isso este lançamento importe agora. Em 2026, quando tudo pede velocidade, alguém pede escuta.

Entre reportagem e caderno

Não estou num estúdio. Estou na rua. Mas a sensação é a mesma. Ouvir vozes a sobrepor se. Uma história puxa outra.
A música não fecha a conversa. Abre.

Há algo de muito feminino aqui, no melhor sentido. Um espaço criado à margem. Um lugar seguro improvisado.
Não é nostalgia. É continuidade.

MúsicaTotal, pés no chão

Este texto não quer concluir nada. Só registar.
O som de um pente.
A voz de duas mulheres que sabem de onde vêm.
A cultura como coisa viva, imperfeita, desalinhada, mas quente.

Talvez seja isso que anda a mexer.
Não grandes manifestos.
Pequenos rituais recuperados.

Fecho o caderno.
Ainda ouço o rádio.
A rua continua molhada.
E a música.
Acontece.