Lançado pela Rough Trade Records, este homónimo não tenta organizar o caos, tenta habitá-lo. E isso faz toda a diferença.
Fragmentação como método
O disco vive de colisões. Ideias que parecem não encaixar acabam por encontrar um eixo estranho, quase acidental. Há momentos em que tudo soa desconexo, até que, de repente, surge uma lógica própria. Não é imediata, nem confortável. Mas funciona.
Picton trabalha com estruturas partidas, ritmos que evitam resolução e uma sensação constante de instabilidade. A música parece estar sempre a escapar, como se recusasse ser apreendida de uma só vez.
Um corpo sonoro em tensão
A tensão aqui não é só estética, é física. Há uma sensação de urgência permanente, como se cada faixa estivesse prestes a colapsar. Vozes que surgem quase histéricas, instrumentação que entra e sai sem aviso, dinâmicas que se quebram sem aviso prévio.
Mas não é caos gratuito. Existe intenção, mesmo quando tudo parece fora de controlo. Essa linha fina entre desordem e construção é o que sustenta o disco.
Fora da sombra de black midi
Comparar com black midi é inevitável, mas este projeto não vive disso. Se na banda havia um equilíbrio entre virtuosismo e estrutura, aqui Picton parece mais interessado em testar os limites da própria forma.
O resultado é menos técnico no sentido clássico, mas mais visceral. Mais direto. Mais estranho.
Um disco que não pede permissão
My New Band Believe não é um disco que se explica. Nem quer ser. Funciona melhor quando é sentido como um fluxo descontrolado de ideias que, contra todas as probabilidades, encontra coerência.
Não é fácil. Não é linear. Mas há algo aqui que fica, uma espécie de eco difícil de ignorar, mesmo quando o disco já terminou.