Bruno Mars reaparece quando a cidade ainda está acordada

Uma canção nova. Um vídeo. Um anúncio que cai na rua como som distante de concerto. E 2026 começa a ganhar forma.

 

A notícia entra sem pedir licença

Estou num café aberto fora de horas. Luz branca demais. A chávena ainda quente. A rua lá fora húmida, aquela humidade que cola à roupa e ao pensamento. Um cartaz torto anuncia uma semana cultural qualquer. Outro cartaz antigo fala de um concerto que já passou. Ninguém o tirou.

No telemóvel, quase sem querer, leio.
Bruno Mars lança novo single.
“I Just Might”.

Leio outra vez. Como quem confirma se ouviu bem.
Lança também vídeo.
E o disco.
The Romantic.
Data marcada. 27 de Fevereiro.

Anoto. Mal. A caneta falha.

Uma música que não entra aos gritos

“I Just Might” não chega como um hino imediato. Chega mais baixa. Mais perto. Uma daquelas canções que parecem saber esperar. O vídeo acompanha. Imagem cuidada mas sem espalhafato. Há ali qualquer coisa de regresso. Não ao passado. Ao corpo. Ao gesto.

Não é nostalgia. É controle.
Bruno Mars a fazer o que sempre fez melhor. Saber quando avançar e quando ficar quieto.

No meio de tendências culturais que pedem excesso, isto soa a escolha consciente. Uma das tais escolhas culturais que não precisam de manifesto.

O disco, o nome, o que vem aí

The Romantic. O título fica a ecoar.
Romântico como quem insiste em sentir.
Como quem desacelera quando tudo pede pressa.

O álbum chega em Fevereiro, mas o anúncio já anda pelas ruas. Nas conversas. Nos auscultadores de quem anda de metro cedo demais. Portugal recebe estas coisas assim. Primeiro em surdina. Depois cresce.

Há livros deixados em bancos. Há música nova a entrar em cafés antigos. É assim que a cultura se infiltra.

A digressão como sinal de vida

E depois vem a tour.
The Romantic Tour.

Primeira digressão global como cabeça de cartaz em quase uma década. Primeira tour mundial em estádios. A escala assusta um pouco. Quase 40 datas. América do Norte. Europa. Reino Unido.

2026 começa a desenhar se com grandes palcos e luzes fortes.
Mas também com expectativa silenciosa. Aquela que se sente no estômago.

Bruno Mars não vem sozinho.
Anderson .Paak aparece como DJ Pee .Wee. Sempre presente.
E depois, em datas escolhidas, Victoria Monét, RAYE, Leon Thomas.

É uma caravana grande. Pesada. Afinada.

Reportagem com os pés no chão

Enquanto leio tudo isto, a porta do café abre e fecha. Um som seco. Um casal fala baixo. Alguém deixa um jornal dobrado numa cadeira.
Lá fora, um elétrico passa devagar demais.

É estranho pensar em estádios enquanto se ouve este silêncio. Mas é assim que as coisas coexistem. A grande máquina da indústria musical e estes momentos pequenos. Um não apaga o outro.

Em Portugal, a cultura vive deste contraste. Do íntimo e do gigante. Do caderno sujo e do palco iluminado.

“I Just Might” entra neste espaço intermédio. Não pede que gritemos já. Pede que escutemos primeiro.

Números que pesam, mas não explicam tudo

Sete concertos seguidos esgotados no Tokyo Dome.
Digressão recordista no Brasil.
Residência em Las Vegas.
Inauguração de arenas.

Os números impressionam. Claro. Mas dizem pouco sobre o que realmente importa. O momento em que uma canção toca alguém num dia banal. Num café qualquer. Numa rua molhada.

É aí que a música ganha corpo.
É aí que deixa de ser comunicado de imprensa.

Última nota no caderno

Bruno Mars volta.
Com calma.
Com escala.
Com intenção.

A cidade continua.
O café vai fechar.
Dobro o caderno.

A música fica.
A acontecer.