A rua ainda está molhada.
Choveu de madrugada. Cheira a pó molhado, a café aberto cedo demais. Portugal acorda assim, meio torto, meio lento. Uma porta range. Alguém arrasta uma cadeira. Há um cartaz colado à pressa numa parede descascada. Cola a mais num canto, a menos noutro. Diz TRISTANA II. Diz 30 de Janeiro. Diz 20 de Fevereiro. Fico a olhar. Um pouco mais do que devia.Não é só um disco novo.
Sente-se outra coisa a mexer. Cultura a respirar. Devagar. Mas a sério.

O disco chega, mas a cidade já sabia
Stereossauro prepara-se para editar em vinil TRISTANA II a 30 de Janeiro. Vinil. Um objecto que pede tempo. Que obriga a virar o lado. A ouvir inteiro. Nada de saltar faixas. Isto diz muito. Diz escolhas culturais num tempo de pressa.
Nas Caldas da Rainha fala-se baixo do disco. Numa mesa de café. Noutra ninguém liga. Um livro esquecido num banco. Um miúdo a bater o pé no chão, ritmo qualquer. Pequenas coisas. É assim que as tendências culturais começam. Não em manifestos. Em gestos pequenos.
Uma Tristana diferente, talvez igual
No primeiro disco havia melancolia. Um quarto fechado. Agora não.
Agora Tristana sai. Sacode os ombros. Entra na noite sem olhar para trás. O single chama-se “Martelo de Porcelana”. Nome frágil e violento ao mesmo tempo. Como a vida. Como dançar sabendo que se pode partir qualquer coisa.
É noite do diabo. Dançar. Arriscar. Talvez casar. O amanhã logo se vê. Hoje não. Hoje é movimento. A palavra continua lá, mas anda. Já não fica sentada.
A voz que não se aprende
Ana Magalhães volta a dar corpo a Tristana. E isto importa. Muito.
A voz dela não vem de conservatório. Vem de casas de fado, de noites longas, de errar em público. Fado vadio. Fado vivido. Voz grave, rugosa. Com marcas. Com adversidade. Não se limpa isso. Ainda bem.
Do Porto para as Caldas. De um mundo para outro que afinal não é outro. A electrónica entra. House. Techno. Drum’n’bass. Ritmos que pedem corpo. Stereossauro conhece a pista. Conhece a noite. Mas não larga a palavra. Nunca.
Música que não pede licença
A sonoridade é mais dançável. Mais directa. O corpo é chamado. A tradição não é abandonada. É deslocada. A guitarra portuguesa fica de fora. E o mundo não acaba. Pelo contrário. Abre-se.
Este disco foi produzido, composto e gravado pelo próprio Stereossauro. Tudo nas Caldas da Rainha. Sente-se o lado artesanal. Feito em silêncio. Em horas estranhas. Letras dele. Um gesto inteiro. Sem rede.
Imagens que também falam
O videoclip de “Martelo de Porcelana” vai buscar referências a Stranger Things. Crianças. Uma casa assombrada. Um bosque. Halloween. Noite do diabo outra vez. Tudo pode acontecer. Mesmo tudo.
A identidade visual é de Tamara Alves. Já vinha do primeiro capítulo. Volta agora. Uma nova Tristana. Olhar firme. Néon de rave a rasgar a noite. Um coração de Viana ali, no peito. Pequeno detalhe. Importante.
Licenciada na ESAD. Mestre na FBAUP. Arte urbana. Reconhecida. Mas aqui não interessa o currículo. Interessa o acerto. A imagem encaixa no som. Como se sempre tivesse estado lá.
Pontes improváveis, mas reais
Ao longo do percurso, Stereossauro tem feito isto. Ligar pontos.
Rui Miguel Abreu escreveu que poucos como ele souberam captar a alma musical portuguesa e traduzi-la numa linguagem contemporânea. Sem preconceitos. Sem fronteiras. É verdade. Basta ouvir. Basta ver as colaborações. Capicua. Carlos do Carmo. Ana Moura. Camané. E agora outra vez Ana Magalhães.
Isto é cultura a acontecer. Não como museu. Como coisa viva.
Fevereiro, ao vivo
A apresentação acontece a 20 de Fevereiro no Festival Impulso.
Imagino a sala. O chão a vibrar. A voz a cortar o escuro. Tristana de cabeça levantada. Um disco mais luminoso. Mais afirmativo. Talvez seja isso que anda no ar nesta semana cultural contínua que nunca acaba.
2026 ainda parece longe. Mas começa aqui. Em salas médias. Em cidades fora do centro. Em escolhas feitas sem muito barulho.
Quem é Stereossauro
Com uma carreira consolidada que se divide entre o DJing e a produção musical, iniciada no início dos anos 2000, Stereossauro construiu um percurso singular, marcado por uma discografia extensa e por um palmarés ímpar no universo do DJing competitivo.
Apresentou DJ sets e concertos com produções próprias nos principais festivais em Portugal, tendo também atuado internacionalmente em países como os Estados Unidos, Alemanha, França, China e Macau.
Na cena das batalhas de DJs, é quatro vezes campeão mundial. Em 2024, venceu tanto o DMC Open Online como a batalha mundial DMC Open, em Paris. Enquanto membro dos Beatbombers, ao lado de DJ Ride, conquistou ainda a categoria Show do IDA em 2011 e 2016, consolidando uma reputação de excelência técnica e criatividade performativa à escala global.
Enquanto produtor, Stereossauro tem desenvolvido um trabalho profundamente ligado ao sampling da guitarra portuguesa e à herança do fado, dando-lhe nova vida através da música eletrónica. É considerado um dos pioneiros do movimento “novo fado” surgido em Lisboa, tendo a sua expressão mais marcante no aclamado álbum Bairro da Ponte (2019). Nesse disco, cruzou batidas eletrónicas com vozes e obras de referências maiores da música portuguesa, como Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Carlos Paredes e Ana Moura, contribuindo para a criação de uma nova linguagem musical no contexto nacional.
Com mais de 50 mil ouvintes mensais no Spotify, a sua música tem registado um crescimento consistente a nível internacional. Paralelamente, Stereossauro conta com um vasto catálogo de produções para outros artistas e com vários placements em publicidade e televisão, incluindo o tema de abertura do Festival Eurovisão da Canção 2018 e o hino oficial do Campeonato Português de Futebol de 2021.


















