O Portuguese Guitar Festival volta a Lisboa e a guitarra portuguesa volta ao centro do palco. Ou pelo menos parece. Porque a pergunta aparece logo, quase sem pedir licença. Celebrar chega.

Há sempre este discurso bonito do diálogo entre tradição e presente. Está certo. É preciso dizê lo. Mas a verdade é outra coisa. A guitarra portuguesa não sobrevive de intenções. Nem de cartazes bem compostos. Sobrevive quando é empurrada para sítios desconfortáveis. Quando é obrigada a lidar com outras linguagens. Quando corre o risco de não soar bem.

Proteger a herança é importante, claro. Mas há um momento em que a proteção vira vitrine. O instrumento fica ali, iluminado, respeitado, intocável. E isso mata qualquer coisa. A guitarra portuguesa perde força quando é tratada como peça de museu, mesmo que o museu tenha boa acústica.

O festival é necessário. Não está em causa. Mas talvez precise de ir mais longe do que aquilo que já sabemos fazer. Menos reverência. Mais fricção. Menos confirmação do que é seguro. Mais perguntas sem resposta. Mais tensão criativa, mesmo que nem tudo funcione.

E depois há outra questão que raramente se diz em voz alta. Quem está a ouvir. E quem não está. A guitarra portuguesa continua muitas vezes fechada nos mesmos circuitos, para públicos que já conhecem o código, que já sabem o que esperar. Falta perceber se estes eventos estão a criar novas escutas ou apenas a reencontrar os de sempre. Sem novos ouvidos, não há futuro. Há repetição.

Ainda assim, num tempo em que tudo pede velocidade e consumo rápido, o simples facto de a guitarra portuguesa voltar a ser assunto já é um gesto político. Obriga a parar um pouco. A escutar com tempo. A aceitar que nem tudo precisa de ser imediato para importar.

Talvez o verdadeiro teste ao Portuguese Guitar Festival não esteja no programa nem na execução técnica. Está no depois. No que fica. Se alguma coisa sai da sala e vai contaminar outros músicos. Se aparecem colaborações improváveis. Se alguém pega no instrumento e tenta outra coisa qualquer. A guitarra portuguesa não precisa de ser protegida. Precisa de ser posta em jogo. E ver o que acontece.