Zurrapa: “Vamos sempre fazer o nosso barulho de forma livre” — entrevista com Nuno Mendonça

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Nuno Mendonça, natural de Ponta Delgada, carrega consigo um percurso que cruza ilhas e gerações. Fez parte da cena de heavy metal dos anos 2000 nos Açores, saiu para estudar no continente e acabou por ficar. Hoje é professor de música e mantém-se ativo em vários projetos, incluindo os Zurrapa e TVMVLO, continuando a alimentar uma ligação direta entre experiência, ensino e palco.

Entre salas de aula e palcos, construiu um trajeto consistente, onde a prática nunca se desligou da teoria. A vivência na cena underground açoriana marcou-lhe o olhar, mas foi no continente que consolidou o seu papel como músico e criador. Essa dualidade ainda hoje se sente na forma como fala da música: com memória, mas sem nostalgia.

Nos Zurrapa, assume uma identidade crua e direta, alinhada com a urgência do punk, enquanto noutros projetos explora outras linguagens e dinâmicas. Essa versatilidade não surge como estratégia, mas como consequência natural de um percurso feito sem concessões, sempre próximo daquilo em que acredita.

Há também uma dimensão pedagógica que atravessa tudo o que faz. Ensinar música não é apenas transmitir técnica, é prolongar uma cultura, abrir espaço a novas vozes e manter viva uma certa ideia de comunidade. E, no fundo, essa ligação entre palco e formação acaba por definir o seu caminho: alguém que não separa o fazer do partilhar.

 

 

O nome Zurrapa sempre gerou curiosidade, como nasceu e o que representa hoje?
Nuno: Zurrapa surgiu pela piada de ser um vinho mau. Como o som que estávamos a fazer soava tudo menos bem e estava claramente a ir para o punk, pareceu-nos um nome adequado. Hoje, para nós, representa muito. Para muita gente, os Zurrapa são uma espécie de piada ou algo que não se leva a sério, mas para nós não podia ser menos isso; para nós é algo muito sério e de que gostamos muito. Se conseguimos levar na brincadeira, isso já é outra coisa.

No início, tinham uma visão clara do que queriam ser ou isso foi-se construindo com o tempo?
Nuno: Na verdade, sim, tínhamos noção do que queríamos, mas talvez com algumas nuances um pouco diferentes. Mas, ao segundo ensaio, já estávamos 100% nesta direção. Foi algo natural; mesmo que fizéssemos força para outro lado, acabávamos por ir dar ao mesmo sítio.

Que diferenças sentem entre tocar no continente e tocar nos Açores?
Nuno: Para mim, como açoriano e micaelense, tem sempre um significado especial tocar “em casa”. Embora a casa dos Zurrapa seja Viseu, e claro, aqui temos muito mais gente que nos conhece e segue. É mais fácil pela proximidade, pelas amizades, etc.
Mas, de facto, são públicos diferentes, nem melhores nem piores, apenas diferentes. Talvez, nos Açores, por não nos conhecerem tão bem, tenham um pouco mais o “pé atrás”. Mas acho que isso se desvanece rapidamente.

Há alguma história de estrada que ainda hoje vos faça rir ou pensar “isto só nos acontece a nós”?
Nuno: Há muitas! Infelizmente, a maior parte não se pode contar por razões óbvias. As nossas viagens têm sempre peripécias, mais que não seja por pura estupidez nossa. Uma vez, fomos pelo GPS parar dentro de um centro de recolha ou tratamento de lixo…

Como foi receber a responsabilidade de pegar num hino ligado a um clube e adaptá-lo ao vosso estilo?
Nuno: O União Micaelense sempre foi o meu clube do coração, o único de que alguma vez fui e sou sócio. Foi por haver essa ligação afetiva que a ideia surgiu. Falaram connosco sobre a possibilidade e decidimos tentar fazer uma versão nossa e à nossa maneira do hino, mas sem alterar a base e a raiz do mesmo. A responsabilidade de mexer em algo feito pelo Luís Alberto Bettencourt pesou bastante na hora de entregar a música, mas mesmo que a medo lá enviámos o resultado final e, felizmente, todos ficaram satisfeitos.

O que não pode faltar num concerto vosso para vocês sentirem que valeu mesmo a pena?
Nuno: Cerveja tem de haver sempre. Muita, de preferência. Para nós, todos os concertos valem a pena; estar em cima do palco para nós é mesmo estar onde gostamos. É o nosso habitat natural. Do concerto mais pequeno ao maior, a festa é sempre a mesma, pelo menos da nossa parte. Claro que é bacano quando o pessoal desata a cantar os refrões das músicas ou quando desatam à lambada (saudável) lá na frente!
Mas valer a pena, valem todos!

Há músicas vossas que ganharam um significado diferente com o passar dos anos?
Nuno: Nunca pensei nisso. Penso que os temas que abordamos estão sempre atuais. A primeira música que fizemos e que ainda hoje tocamos foi o “Escravo do Poder” e continua tão atual hoje como no dia em que a fizemos.

O que vos continua a dar vontade de subir ao palco depois de tantos anos?
Nuno: Subir ao palco é sempre o nosso objetivo. É o culminar do processo. Se ensaiamos, criamos músicas e gravamos discos, é com essa finalidade: subir a palco. Temos algumas músicas que nunca tocamos ao vivo e, para mim, são músicas “inacabadas”. Penso sempre que tocá-las ao vivo é o que as torna músicas fechadas.
A adrenalina e a energia do palco são diferentes de tudo. Aí não há “takes”, não há “camuflagens digitais” que resolvam; somos nós e os instrumentos, em direto. Para o bem e para o mal.

Este novo trabalho aponta para continuidade ou para uma mudança mais arriscada?
Nuno: Sou sempre péssimo a avaliar o que fazemos, mas, se tivesse de arriscar, talvez diria que é um disco de continuidade. Mudanças há sempre, vamos ficando mais velhos e vamos evoluindo. Em princípio, neste disco teremos algumas participações especiais… e solos, acho que temos dois solos de guitarra no disco! Mas não trabalhamos para descobrir a roda; o que fazemos é punk. As nossas influências são claras e não temos qualquer pudor em assumi-lo: fazemos o som que gostamos, e gostávamos, de ouvir.

Como veem a cena punk e rock em Portugal atualmente, sentem que está mais viva ou mais dispersa?
Nuno: Nós vivemos num nicho, no chamado underground… e seja rock, punk ou metal, a mim parece-me que existe muita atividade e muita qualidade. Existem bandas de enorme qualidade e para todos os gostos, em quase todos os estilos. Por isso, sim, considero que a cena está bastante viva.

Se pudessem voltar atrás, há alguma decisão na vossa carreira que fariam de forma diferente?
Nuno: Nenhuma! Não temos tempo para arrependimentos, o caminho é para a frente. Se já fizemos asneiras e tomámos decisões erradas? Claro que sim, mas não resolve nada ficar a pensar nisso. O caminho é definitivamente para a frente. Tudo o que possamos ter feito errado ajudou a formar o nosso carácter enquanto banda.

Quando pensam no futuro da banda, imaginam crescimento, transformação ou simplesmente continuar a fazer barulho à vossa maneira?
Nuno: Não pensamos muito no futuro. A única certeza que temos é que garantidamente nunca nos iremos vergar perante poder algum. Vamos sempre fazer o nosso “barulho” de forma livre e independente e a bater em quem bem entendermos. Se haverá alguma transformação? Não sei mesmo, já não vamos para novos, se calhar qualquer dia começamos a tocar mais devagar. Não, estou a brincar, isso nunca vai acontecer.

Já agora, estão convidados a aparecer na Vulcana no dia 3 e a participar da festa connosco!
Obrigado pela oportunidade!
Nuno Mendonça

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