Uma conversa que começa no passado mas nunca fica presa nele. Bid revisita a génese dos The Monochrome Set, fala de identidade construída fora de qualquer tendência e explica como um simples sonho acabou por dar origem a “Lotus Bridge”, o novo disco lançado em março.
Entre memórias, processos criativos e uma visão crua sobre o presente, a entrevista revela um artista que continua a recusar explicações fáceis. Pelo meio, surgem ideias de colapso, liberdade individual e uma travessia inevitável para algo que ainda ninguém consegue definir.

Olhando para os primeiros dias dos The Monochrome Set, o que estavam a tentar expressar que sentiam faltar na música da altura?
Estávamos a percorrer um caminho criado por nós, mas não tínhamos uma descrição para ele. Não sabíamos para onde ia.
O teu trabalho sempre teve um forte carácter literário e cinematográfico. De onde veio esse instinto?
Eu lia poesia desde cerca dos 12 anos, por isso quando comecei a escrever letras (por volta dos 16), já tinha essa compreensão das técnicas poéticas.
O final dos anos 70 foi um período em que filmes “alternativos” começaram a ser exibidos com mais frequência na televisão e em pequenos cinemas, e isso influenciou-me.
Ao longo de cinco décadas, o vosso som evoluiu mas nunca perdeu identidade. Isso foi algo que protegeste conscientemente ou aconteceu de forma natural?
Muitas das canções são bastante centradas nas letras, e as letras são muitas vezes “densas”, por isso há um espaço que a música cria para elas. Isso já cria uma identidade, e tornou-se mais forte desde os primeiros álbuns de Scarlet’s Well.
Houve momentos em que sentiste que a banda estava desalinhada com o seu tempo, ou talvez à frente dele?
Não acho que qualquer artista genuinamente criativo, ou grupo de artistas, esteja alguma vez em sintonia com o que quer que seja. Criam o seu próprio espaço e tempo, que muitas vezes (direta ou indiretamente) influencia o fluxo da vida mainstream.
“Lotus Bridge” soa como uma narrativa contínua moldada por um sonho. Como é que essa ideia se transformou num álbum completo?
A própria canção “Lotus Bridge” é um poema baseado num sonho vívido que tive no início de 2024. Inicialmente não estava interessado em escrever sobre isso, mas quando comecei a escrever letras mais tarde nesse ano, simplesmente saiu. Ao mesmo tempo, surgiram muitos outros versos que pareciam, de alguma forma, estar ligados a Lotus Bridge. Era realmente um poema épico, mas percebi que podia ser transformado em diferentes canções.
O disco inclina-se mais para o piano e para texturas acústicas do que antes. O que te levou a essa abordagem mais contida?
Isso aconteceu em parte porque a Athen Ayren (teclista) entrou em estúdio uma semana mais cedo. Ela colocou muito piano elétrico em todo o lado, algo que eu não esperava, mas que funcionou muito bem. Depois adicionei uma guitarra acústica, mais alta do que o habitual, e abri bastante as guitarras elétricas no estéreo, criando espaço para o piano. O som geral da banda neste álbum é muito consequência da forma de tocar da Athen.
As tuas letras continuam a equilibrar ironia e reflexão. O teu processo de escrita mudou muito ao longo dos anos?
Não muito; eu vivo normalmente, e espero que aconteçam coisas que me guiem a escrever sobre elas. Nos últimos anos, isso não tem sido um problema…!
Sente-se uma ideia de transição ao longo do álbum. Vês isso como algo pessoal, político ou mais abstrato?
A política é uma obstrução usada por pessoas perversas; não escrevo sobre política em si.
O álbum é uma viagem de reafirmação, da força do indivíduo e da miséria de um coletivo falso.
Depois de uma carreira tão longa, o que continua a motivar-te a criar nova música?
Não consigo evitar.
Quando os artistas começam o seu percurso, tornam-se escravos das Criaturas dentro deles.
Pensas no legado nesta fase, ou continuas focado apenas na próxima ideia?
Dizem-me coisas sobre o nosso legado, mas isso não muda o que faço.
Tenho sempre tarefas para cumprir, neste momento é ensaiar para os próximos concertos.
Não vou sequer pensar em escrever canções durante pelo menos um ano.
Onde vês os The Monochrome Set a caminhar criativamente nos próximos anos?
Nunca sei.
Se a “Lotus Bridge” fosse real, atravessavas para o desconhecido ou ficavas ligado ao passado?
A sociedade está a dissolver-se rapidamente neste momento, e nós já estamos a atravessar para o desconhecido.
Ler: Entrevista: The Monochrome Set atravessam o desconhecido

