Algumas músicas não se limitam a tocar, ocupam espaço. Ficam a ecoar mesmo depois do silêncio.
Enquanto revejo esta conversa, “Labanta Braço” regressa vezes sem conta. A energia não é apenas rítmica. É criativa, quase física. Sente-se ali a força de um grupo que nunca se limitou a tocar, mas que sempre quis afirmar algo maior.
Nesta entrevista exclusiva, Os Tubarões revisitam momentos decisivos do seu percurso, falam da construção de uma identidade artística profundamente enraizada na cultura cabo-verdiana e explicam como continuam a equilibrar tradição e modernidade sem perder autenticidade. O diálogo revela uma banda consciente do seu papel histórico, mas longe de viver apenas da memória.
Existe também uma dimensão humana que atravessa o discurso. A escolha criteriosa de novos elementos, a valorização do carácter e da partilha de princípios, o respeito por valores sociais e humanitários ajudam a explicar a coesão interna ao longo de décadas.
A banda numa altura em que se preparam para subir ao palco do LAV – Lisboa Ao Vivo, em Lisboa, no próximo dia 29 de março.
“Labanta Braço” volta a tocar, percebe-se melhor o que está em causa. Não é apenas nostalgia. É uma energia criativa que resiste ao tempo. Uma pulsação que continua a levantar braços, dentro e fora do palco.

Quando olham para o vosso percurso, que momento sentem que mudou tudo dentro da banda?
A entrada de Ildo Lobo, em 1973, trouxe uma nova perspetiva e dinâmica ao grupo, uma vez que passámos a dar maior atenção aos géneros tradicionais.
De que forma a ligação às raízes cabo-verdianas continua a orientar as decisões musicais que tomam hoje?
O regresso de Zeca Couto dos estudos em Cuba, em 1980, trouxe ao grupo ferramentas teóricas no domínio musical, o que se refletiu na qualidade dos arranjos e das composições. Zeca Couto introduziu também o tratamento de temas associados a tradições culturais de raiz popular que, no passado, eram marginalizadas, nomeadamente a Tabanka e o Colá São João. Pode dizer-se que deu um passo fundamental para que essas manifestações passassem a ser reconhecidas como géneros musicais.
A gravação dos dois primeiros LP, Pepe Lopi e Tchon di Morgado, abriu caminho à construção do nosso património discográfico.
Houve alguma canção que, no momento em que foi criada, vocês já sabiam que teria um peso especial para o público?
Essa é uma questão central para o grupo. A base do trabalho de Os Tubarões assenta na cultura cabo-verdiana, erudita e popular. Independentemente da modernidade introduzida através dos arranjos e do recurso a instrumentos que permitiram novas sonoridades, a essência manteve-se sempre fiel às raízes.
Como se mantém viva a identidade do grupo depois de tantas transformações pessoais e culturais ao longo dos anos?
A identidade mantém-se através do repertório e das referências que cultivámos ao longo do tempo. Podemos citar a morna “5 de Julho”, a coladeira “Labanta Braço”, “Djonsinho Cabral”, “Tunuca”, “Mula Mansa”, “Porton d’Nôs Ilha”, “Tema Tabanka” e “Tema para Dois”. São composições que definem o nosso percurso e continuam a representar aquilo que somos.
O que aprenderam uns com os outros que vai muito além da música?
A escolha de novos elementos foi sempre criteriosa. Tivemos sempre em conta o carácter e a personalidade de cada pessoa, que deveria identificar-se com os princípios e valores defendidos pelo grupo.
Como vivem o reencontro com públicos mais jovens que descobrem agora as vossas canções?
É gratificante verificar a aceitação demonstrada pelos mais jovens em relação ao nosso trabalho, sobretudo quando reconhecem os princípios sociais e os valores humanitários presentes nas nossas canções.
Depois de uma pausa tão longa, o que sentiram no primeiro ensaio de regresso aos palcos?
Foi vivido com grande ansiedade e emoção, mas também com um forte sentido de responsabilidade.
Lisboa sempre teve uma ligação forte à vossa história. O que representa tocar novamente na cidade?
Em Lisboa sentimo-nos bem. Fomos sempre bem recebidos e acarinhados, e o nosso trabalho foi apreciado e respeitado. Se podemos falar de reconhecimento fora de Cabo Verde, Lisboa foi o ponto de partida. É uma cidade acolhedora, onde vivemos momentos memoráveis.
Que desafios enfrentam hoje enquanto coletivo artístico num mundo musical tão acelerado e digital?
Aceitamos o moderno e o digital, mas procuramos não nos submeter a essas dinâmicas. O desafio é manter a autenticidade num contexto de mudança constante.
Quando pensam no caminho que ainda querem percorrer juntos, que tipo de legado desejam continuar a construir?
O legado é aquilo que foi construído ao longo de décadas. O nosso principal papel é preservá-lo, mantendo-nos genuínos e fiéis à identidade que sempre defendemos.
