Feira do Vinil de Lisboa afirma-se como ponto de resistência e encontro da cultura analógica

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O regresso do vinil deixou de ser tendência para se tornar hábito. Em Lisboa, essa mudança tem morada fixa no Mercado de Santa Clara, onde colecionadores, melómanos e curiosos continuam a procurar discos como quem procura memória. A Feira do Vinil de Lisboa não é apenas um evento de compra e venda.

 

 

É um ritual urbano que confirma que o formato físico ainda respira, insiste e cresce.

Desde a primeira edição, a 14 e 15 de abril de 2018, o projeto evoluiu com naturalidade. O que começou como experiência de dois dias transformou-se numa presença regular no calendário cultural da cidade. Hoje soma quatro edições anuais, aproveitando as datas disponíveis da Junta de Freguesia de São Vicente, e chega à 20ª edição com maturidade e identidade própria.

Crescimento sustentado e consolidação no panorama lisboeta

A estreia contou com cerca de 14 vendedores. O número pode parecer modesto, mas revelou-se suficiente para testar o interesse do público. A adesão superou expectativas e o formato expandiu-se para três dias nas edições seguintes, sinal claro de que existia procura real e continuada.

Atualmente, a feira reúne entre 20 e 30 expositores por edição. O crescimento não se mede apenas em números, mas na diversidade e na regularidade. Alguns vendedores vêm do estrangeiro, ampliando o alcance internacional do evento. Ainda assim, mantém-se um dado revelador: apenas três expositores são oriundos do norte do país, um sinal de que o eixo da feira permanece fortemente concentrado na capital.

Mercado de Santa Clara como palco simbólico

A escolha do Mercado de Santa Clara, junto à Feira da Ladra, não é neutra. O espaço carrega tradição popular, circulação multicultural e uma dinâmica de descoberta constante. Nesse contexto, o vinil encaixa como extensão natural da lógica de garimpo e raridade que sempre definiu o local.

O ambiente mistura turistas, colecionadores experientes e jovens que iniciam agora o hábito de escutar música em formato físico. A experiência vai além da compra. Folhear capas, negociar preços, trocar histórias sobre prensagens antigas ou edições raras transforma o mercado num espaço de partilha intergeracional.

Mais do que vinil: um ecossistema musical físico

O foco principal é claramente o vinil, mas a feira não se limita a ele. CD’s, cassetes e t-shirts de bandas ampliam a oferta, refletindo a pluralidade de géneros musicais presentes nas bancas. Do rock ao jazz, da eletrónica ao metal, a diversidade é uma das marcas do evento.

Na 20ª edição já estão confirmadas presenças como João, Equilibrium Music, Regresso ao Passado, Pantero Records, Groovie Records, Fisherman Records, O Sotão na Loja, Wasser Bassin, Lo Jesse de Espanha, entre outros nomes habituais e independentes. A repetição de alguns expositores cria continuidade, enquanto a entrada de novos participantes renova o interesse.

Importância cultural e económica para a cena independente

Num momento em que o streaming domina o consumo musical, a Feira do Vinil de Lisboa funciona como contraponto concreto. Sustenta pequenas lojas, colecionadores profissionais e editoras independentes que encontram ali um canal direto com o público.

Mais do que nostalgia, o que se observa é uma economia paralela baseada na curadoria humana. Cada banca tem identidade, gosto, especialização. Essa dimensão pessoal diferencia a feira de qualquer algoritmo. Para a cena independente portuguesa, o evento representa visibilidade, circulação de catálogo e criação de rede.

Ao chegar à 20ª edição, a feira confirma que o vinil não é apenas objeto decorativo ou moda passageira. É um gesto cultural que implica tempo, escuta atenta e comunidade. No coração de Lisboa, entre bancas e capas coloridas, continua a formar-se uma pequena geografia onde a música se toca, se troca e se leva para casa.

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