Lhast regressa com “Bon Vivan” e “Malandrim” e aprofunda o jogo entre extremos

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Há momentos em que um artista decide não avançar em linha reta, mas abrir o campo. Lhast faz exatamente isso neste novo capítulo. Depois de um disco introspectivo e quase clínico na forma como desmontava o interior, surge agora com duas faixas que deslocam o foco para fora, para o ruído do quotidiano, para aquilo que se vive entre impulsos contraditórios.

“Bon Vivan” e “Malandrim” não são apenas novos temas. Funcionam como peças complementares de um mesmo gesto criativo. Existe aqui uma intenção clara de trabalhar contraste, de explorar tensões que já estavam latentes, mas que agora ganham forma mais direta, mais imediata, menos cerebral.

Uma continuidade que não repete

O ponto de partida ainda está ligado ao universo de “Violetta”. Isso sente-se na estética, na forma como o artista mantém uma identidade visual coerente, mas também na atenção ao detalhe conceptual. No entanto, há uma diferença importante: antes, o discurso parecia voltado para dentro, quase como um exercício de análise pessoal.

Agora, a abordagem muda de eixo. As novas faixas observam o exterior. Há personagens, ambientes, pequenas contradições do dia a dia que passam para o centro da narrativa. Não se trata de abandonar o passado recente, mas de o expandir. Como se o mesmo olhar ganhasse outra distância.

Essa transição é subtil, mas decisiva. E é precisamente aí que o lançamento ganha força.

Dualidade como motor criativo

O conceito é simples na superfície, mas eficaz: bom e mau, caos e calma, impulso e controlo. “Bon Vivan” e “Malandrim” funcionam quase como dois lados de uma mesma identidade. Não há tentativa de resolver essa tensão. Pelo contrário, ela é assumida como parte essencial do discurso artístico.

A escolha cromática reforça essa ideia. Azul e vermelho voltam a surgir como códigos visuais, criando uma continuidade estética com trabalhos anteriores, mas também sublinhando o contraste que estrutura estas novas músicas.

Mais do que um conceito decorativo, esta dualidade traduz-se na própria construção sonora. Há momentos mais leves, quase hedonistas, e outros mais densos, mais agressivos. Essa alternância mantém o ouvinte em constante ajuste, sem nunca permitir um conforto total.

Um videoclipe que junta dois mundos

O lançamento chega acompanhado por um videoclipe que liga diretamente os dois temas. A realização de Tommy Loureiro aposta numa narrativa visual que espelha as diferenças entre as faixas, tanto a nível estético como rítmico.

Não é apenas uma junção prática de dois singles. Existe uma intenção de criar um objeto único, onde imagem e som trabalham em conjunto para reforçar a ideia central. As transições, os contrastes de ambiente e de energia ajudam a materializar aquilo que as músicas já sugerem.

Esse cuidado na componente visual mostra uma consciência cada vez maior do formato. Já não basta lançar música. É preciso construir contexto, criar um universo onde cada elemento contribui para a leitura global.

Produção, escrita e afirmação

Na base sonora, a produção de Nanu oferece um terreno sólido para esta exploração. Há espaço, textura e dinâmica suficientes para acomodar as duas facetas apresentadas. A composição, assinada pelo próprio Lhast, mantém-se fiel a uma identidade que já é reconhecível, mas sem cair em repetição.

Depois de um 2025 que consolidou a sua posição dentro da música urbana nacional, este lançamento surge como um passo estratégico. Não é uma ruptura total nem uma continuação confortável. Está algures no meio, num território onde o risco é calculado, mas ainda assim presente.

E talvez seja precisamente isso que mantém o interesse. A sensação de que ainda há margem para desvio, para surpresa, para pequenas mudanças de direção que evitam qualquer sensação de estagnação.

No fundo, estas duas faixas deixam uma pergunta no ar: até onde pode ir esta tensão entre extremos antes de se transformar noutra coisa qualquer.

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