O anúncio apareceu e ficou ali. Sem barulho a mais. Sem necessidade de se explicar. MUNA voltam com um quarto álbum marcado para 8 de maio e a sensação não é de regresso triunfal.

É de continuação desconfortável. Como quem sabe onde está, mas não faz questão de tornar isso fácil para ninguém.
Depois de algum silêncio, daqueles que não são ausência mas recuo, o trio reaparece sem prometer nada. Só o suficiente para criar fricção. “Dancing On The Wall” soa menos a celebração e mais a teste de equilíbrio. Corpo em movimento. Cabeça cheia. Chão instável.
Um disco pensado como um bloco só
Não parece um disco feito para saltar faixas. A ideia é outra. Um corpo fechado, com peso próprio, onde as canções se empurram umas às outras. Não há pressa em chegar ao refrão seguinte. Há intenção de permanecer no espaço criado.
A própria descrição do álbum aponta para um lado mais escuro. Mais denso. Não no sentido teatral, mas no sentido cansado. Emocionalmente cansado. Um disco que aceita o desconforto como parte da experiência, sem tentar suavizar tudo com brilho pop.
A faixa que dá nome ao desequilíbrio
“Dancing On The Wall” não funciona como single óbvio. Funciona como centro nervoso. A imagem é simples e pouco simpática. O momento em que a fantasia acaba. Meia noite. Acabou a história que estava a ser contada a si próprio.
Há perda ali, sim. Mas não há vitimização. A canção transforma esse fim em impulso. Dançar não como fuga, mas como insistência. Continuar mesmo quando já se percebeu que aquilo não vai devolver o mesmo. É aí que a música ganha força estranha.
Autonomia criativa sem pose
O disco sai pela Saddest Factory Records em parceria com a Secretly Group, em portugal pela Pop Stock, e foi produzido por Naomi McPherson. Informação seca, mas relevante. Porque aponta para controlo interno. Decisões tomadas dentro da banda. Sem intermediários a polir arestas.
Sente se isso na forma como o projeto é apresentado. Nada parece excessivamente calculado. Não há discurso inflado. Há uma confiança silenciosa, quase teimosa, em deixar as canções respirarem mesmo quando ficam desconfortáveis.
Um percurso que permite arriscar
MUNA não chegam aqui por acaso. O caminho foi consistente. Crescimento gradual. Palcos grandes, sim, mas sem perder o hábito de escrever como quem fala baixo. Há experiência suficiente para não ter medo de falhar um pouco.
“Dancing On The Wall” não soa a fecho nem a viragem limpa. Soa a deslocação. A banda mexe se um passo para o lado e deixa tudo ligeiramente fora do sítio. O suficiente para criar tensão. O suficiente para obrigar a escutar com atenção.

















