Há qualquer coisa a mexer. Não é um movimento, não é uma cena organizada, não é um som específico. É mais difuso do que isso.

Várias vozes a aparecerem ao mesmo tempo, quase sem se conhecerem, vindas de sítios diferentes, a dizer coisas diferentes. Algumas ainda sem saber bem o que estão a dizer. Outras já com tudo muito claro. Em 2026, ser novo artista não é começar agora. É ainda estar em processo.
Esta geração cresceu com tudo aberto. Demasiado aberto, talvez. Rádio, streaming, arquivos infinitos, vídeos de concertos que nunca viram ao vivo. Isso ouve se nas músicas. Pop que não pede licença. Canções em português sem vontade de agradar. Electrónica usada como ferramenta, não como verniz. Há menos pressa em encaixar e mais necessidade de existir.
A Antena 3 continua a aparecer como ponto de passagem. Não decide carreiras, mas ajuda a empurrar. Repetição, escuta, contexto. Voltar a passar um tema quando ainda ninguém pediu. Muitos destes nomes chegam a 2026 já com esse lastro. Ainda frágeis, ainda em construção, mas menos invisíveis.
Entre concursos, festivais, primeiros discos e projectos que ainda nem sabem bem o que são, este costuma ser o ano em que a pergunta muda. De quem é este artista para o que é que ele quer fazer com isto tudo. Nem todos vão durar. Nem todos precisam. O interesse está no momento antes da resposta.
Dez projetos portugueses a seguir em 2026
Ana Lua Caiano
Electrónica, percussão, voz e tradição misturadas sem cerimónia. Nada de nostalgia limpa. Há atrito, repetição, corpo. Parece simples. Não é.Marquise
Guitarras tensas, palavras ditas de frente, pouca vontade de suavizar. Um projecto que cresce no desconforto e não tenta escondê lo.NAPA
Canções que entram fácil e ficam mais tempo do que parece. Pop com escrita cuidada e noção clara do público, sem perder identidade.Evaya
Voz no centro, silêncios longos, ambientes densos. Música que não corre atrás de ninguém. Ou se entra ou fica se de fora.Dinis Mota
Canções pequenas, produção contida, fragilidade assumida. Crescem devagar. Às vezes só à terceira escuta.Nunca Mates o Mandarim
Pop alternativa pensada como percurso. As músicas conversam entre si. Há narrativa, mesmo quando não é óbvia.Bateu Matou
Ritmo em primeiro plano. Palavra dita, percussão, energia física. Música que faz mais sentido quando o corpo entra ao barulho.Inês Marques Lucas
Pop melancólico, bem trabalhado, atento às emoções pequenas. Um projecto a ganhar espessura sem pressa.Sandrino
Entre a palavra e a electrónica, entre o urbano e o íntimo. Não se define por género. Define se por clima.Fidju Kitxora
Identidade, diáspora, memória. Música como espaço político sem slogans. Tudo dito de lado, nunca de frente.
Nada aqui aponta numa direcção única. Há dispersão, tentativa, erro. Alguns destes projectos vão mudar muito. Outros talvez desapareçam. É assim mesmo. O interessante é este ponto exacto. Antes de tudo ficar arrumado. Antes de haver certezas.

















