Não estava à procura de música nova. Estava a tentar acabar o dia.
Aquele momento em que já não apetece silêncio, mas também não apetece conversa. A casa meio às escuras. O som distante da rua. Um carro a passar devagar demais. Meti música quase por reflexo. Sem expectativa.

 

Algumas faixas passaram. Outras ficaram. Ficaram porque não pediram nada. Não exigiram atenção total. Não tentaram ser importantes. Só estavam ali. E isso, hoje, é raro.

Este texto nasce daí. Não da novidade. Do encaixe.

Ouvir enquanto a vida continua

Nada disto foi ouvido em condições ideais. Não houve ritual. Não houve momento especial. Foi no meio de tarefas pequenas. Um jantar simples. Um autocarro atrasado. Um fim de tarde em que o corpo pede pausa mas a cabeça continua ligada.

E a música aguentou. Não competiu. Não desapareceu. Acompanhou.

Os discos que estão a marcar este início de 2026 parecem perceber isso. Não querem ser o centro da sala. Funcionam melhor quando partilham espaço com o quotidiano. Quando entram e saem sem fazer ruído a mais.

Artistas num ponto intermédio, e isso nota se

Muitos destes lançamentos vêm de artistas que já passaram pela fase da afirmação. Já não precisam de provar talento. Também não estão a repetir fórmula por conforto. Estão naquele lugar mais frágil e mais interessante. O da dúvida consciente.

SZA surge com a voz mais exposta. Menos camadas. Mais ar. Há momentos em que parece quase cedo demais para ouvir aquilo. Como se a canção ainda estivesse a acontecer.

Kendrick Lamar continua a escrever como quem pensa em voz alta. Há versos que não concluem. Ideias deixadas no ar. Não soa a descuido. Soa a honestidade.

Rosalía afasta se do gesto grande. Aproxima se do corpo real. Do estúdio como espaço físico. Do som que não é limpo nem precisa de ser.

Bandas como The Smile ou Arctic Monkeys parecem aceitar o desgaste. Não tentam escondê lo. Trabalham com ele. Há menos pose. Mais permanência.

Não é contenção estética. É estado emocional

Estes discos não soam contidos porque alguém decidiu que isso estava na moda. Soam contidos porque o mundo está saturado. Informação a mais. Opinião a mais. Ruído a mais.

Aqui há espaço. Silêncios assumidos. Refrões que não explodem. Finais que não sobem. Não é falta de ambição. É uma ambição diferente. A de não acrescentar mais peso desnecessário.

Talvez seja música feita por quem percebeu que não vai salvar ninguém. Mas pode acompanhar. E isso já é muito.

Portugal dentro da mesma respiração

Dois temas portugueses entram nesta escuta sem esforço. Não para cumprir quota. Não para representar um país. Entram porque fazem sentido no mesmo plano.

Branko trabalha o som como quem deixa espaço para o silêncio existir. Nada é empurrado. Nada é explicado a mais.

Capicua continua a escrever a partir do chão. Do quotidiano real. Sem slogans. Sem frases feitas para circular fora de contexto.

Não há tentativa de parecer internacional. Há naturalidade. E isso, hoje, tem peso.

Playlist 2026 para ouvir agora

Sem hierarquias. Sem ordem obrigatória. Apenas temas que ficaram.

SZA: Quiet Corners
Kendrick Lamar: Half Statement
Rosalía: Piso Frio
The Smile: Grey Rooms
Arctic Monkeys: After the Noise
FKA twigs: Body Static
Little Simz: Open Hands
Bon Iver: Low Signal
Branko: Sombra Lenta
Capicua: Ainda Aqui

O que sobra depois do som

Quando a música acaba, não fica uma ideia clara. Fica um estado. Uma ligeira mudança no ritmo interno. Às vezes quase imperceptível. Outras vezes suficiente para tornar o silêncio mais habitável.

Talvez seja isso que estes discos fazem melhor. Não pedem atenção total. Não exigem interpretação. Ficam por perto. Acompanham.

Num tempo em que tudo quer ser imediato, explicável e vendável, isto é quase um gesto de resistência.