Nunca mates o silêncio: Um disco a rolar devagar pelas ruas húmidas do Porto

Há dias em que a cidade parece acordar antes de nós.
O café ainda a cheirar a máquina quente, copos mal lavados, um cartaz torto colado com fita que já perdeu a cola.
Hoje é um desses dias.
E hoje sai um disco.

Nunca Mates o Mandarim lançam Bola de Bilhar.
Assim, sem alarido. Mas sente-se.
Sente-se no ar, nas conversas cruzadas, naquele silêncio estranho entre uma música e outra quando alguém tira os auscultadores no metro.

Um trio. Porto. Começo sem pose

Eles são do Porto. Isso nota-se.
Na maneira como as músicas não pedem licença.
Na forma como os silêncios também contam.

O primeiro longa-duração chega agora, depois de canções soltas, palcos pequenos, semanas culturais que passam rápido e deixam migalhas.
Este disco parece querer ficar. Não grita. Insiste.

Há qualquer coisa de mais sério aqui. Mais pesado. Não no sentido dramático, mas no corpo.
Canções que não se resolvem logo.
Estruturas que desviam, tropeçam, voltam atrás. Como gente a tentar perceber o que anda a fazer.

Bola de bilhar. Empurra. Bate. Volta.

A canção que dá nome ao álbum repete-se. Repete-se mesmo.
Como um pensamento que não larga.
A paixão misturada com rotina.
A posse disfarçada de cuidado.
Os papéis de género a rangerem por dentro, velhos móveis a partir.

É quase hipnótico.
E desconfortável.
Mas não no mau sentido.

Indie pop rock, sim. Mas torto.
Mais experimental do que antes.
Uma escolha cultural consciente, parece-me. Daquelas que não querem agradar a toda a gente. Ainda bem.

Dispersão. Geográfica. Emocional.

Há uma ideia que atravessa o disco. A juventude espalhada.
Corpos em cidades diferentes, cabeças noutro sítio.
Mensagens de voz ouvidas dias depois.
Promessas vagas.

Portugal em suspenso.
Não o postal. O outro.
O das malas feitas mas nunca totalmente fechadas.

Isto não é tese sociológica.
É observação. De rua.
De quem olha à volta e escreve enquanto anda.

Autoria partilhada, produção sem brilho artificial

O disco nasce de João Amorim, com composições também de João Campello e Manuel Dinis.
Produção a várias mãos. Filipe Gonçalves incluído.
Nada de assinatura única.
Tudo mais próximo de uma conversa longa que atravessa noites.

Sente-se isso.
Nada parece excessivamente limpo.
E ainda bem.

Concertos. Datas riscadas no calendário

O disco apresenta-se ao vivo.
Corpo a corpo.

No CCOP, dia 30 de Janeiro.
No Lustre, dia 31.
Na Casa Capitão, a 7 de Fevereiro.

Bilhetes à venda.
Pouca conversa.

Imagino salas cheias de respiração.
Luz baixa.
Alguém a fechar os olhos no meio da música.
Outro a mexer no copo, nervoso.

Cultura a mexer. Sem pedir autorização

Há qualquer coisa a acontecer.
Não é tendência cultural de relatório.
É mais baixo. Mais miúdo.

Livros deixados em cafés.
Portas a rangerem.
Bandas novas a escolherem caminhos menos óbvios.

Este disco aparece num momento certo.
2026 aí ao virar da esquina.
Um país a tentar perceber o que quer fazer com a sua cultura, com as suas escolhas culturais, com o tempo que tem.

Nada se resolve aqui.
Mas também não precisa.

Final quase dito para dentro

O disco já anda por aí.
Rola. Bate. Volta.

Talvez seja isso.
Não matar o mandarim.
Não matar o impulso.

Fecho o caderno.
Ainda a ouvir ao longe.