Estou num café.
Mesa colada à janela.
Chove fino. Daquele jeito que não decide.

Há um cartaz meio torto colado no poste em frente. Um anúncio qualquer.
Penso em concertos filmados.
Penso em como é estranho tentar prender uma coisa que vive do momento.
E penso nos Twenty One Pilots.
Um filme. Mas não só isso
Chega aos cinemas a 26 de Fevereiro. IMAX incluído.
Um filme concerto. Gravado na Cidade do México. Estádio cheio. 65 mil pessoas.
E no papel é simples. Um registo. Um documento.
Mas não é só isso.
Nunca é.
O filme chama se More Than We Ever Imagined.
Mais do que alguma vez imaginámos.
O título soa a balanço. Soa a espanto ainda não resolvido.
Vejo o nome da Trafalgar Releasing associado. Vejo IMAX. Vejo datas.
Mas o que me prende é outra coisa.
A ideia de acompanhar dois tipos desde o momento em que chegam à cidade até ao instante em que o estádio explode.
Antes do estádio houve caves. Muitas
Isto não começou aqui.
Começou em salas pequenas. Em clubes onde o público eram outras bandas.
Tyler Joseph e Josh Dun tocaram para ninguém. Ou quase.
E tocaram como se fosse tudo.
O realizador, Mark C. Eshleman, esteve lá. Durante anos.
Viu os concertos em caves. Viu o equipamento a ser arrastado por escadas acima.
Viu conversas longas depois dos concertos, a afinar um espetáculo que quase ninguém tinha visto.
Essa parte interessa me.
A insistência.
A repetição. O trabalho invisível.
A Cidade do México não é cenário. É corpo
O filme passa se na Cidade do México.
Uma cidade que respira música. Caótica. Viva.
O calor. O trânsito. O barulho constante.
O estádio aparece como um animal enorme.
Câmaras por todo o lado. No ar. No palco. No meio do público.
Mas também nos bastidores. Nos silêncios. Nos momentos antes.
Tyler e Josh falam. Não como estrelas.
Falam como quem ainda tenta perceber como é que chegou ali.
A preparação como ritual
Há algo quase religioso na forma como se preparam.
Ensaios. Ajustes mínimos. Repetições.
Os dedos nunca largam o pulso da atuação.
Isso vê se.
Mesmo quando o espetáculo é gigantesco.
Cultura pop, mas feita à mão
Os Twenty One Pilots sempre viveram num lugar estranho.
Entre o mainstream e a margem.
Entre o pop e algo mais difícil de definir.
Isso também é cultura.
E diz muito sobre as tendências culturais desta década.
Mistura de géneros. Emoção crua. Mensagens diretas. Comunidade.
Não é por acaso que o público canta tudo.
Não é histeria. É reconhecimento.
O cinema como extensão do concerto
Ver isto em IMAX não é um detalhe técnico.
É uma escolha cultural.
O som. A escala. A sensação de estar no meio.
Quase dá para sentir o chão a vibrar.
Mas também há planos pequenos.
Um olhar. Um sorriso rápido. Um silêncio antes da explosão.
É aí que o filme ganha peso.
Quando deixa de ser espetáculo e passa a ser gente.
Entre o global e o íntimo
Enquanto o filme corre, penso em Portugal.
Em como consumimos música.
Em como uma semana cultural num município pequeno pode ser tão intensa como um estádio cheio.
As escolhas culturais não se medem só em números.
Medem se em ligação. Em impacto real.
Este filme lembra isso.
Mesmo sendo global. Mesmo sendo gigante.
2026 já espreita
O filme chega num momento curioso.
Depois de anos de digressões gigantes. De álbuns que quebraram recordes.
Com 2026 ali ao fundo, ainda indefinido.
Não soa a fim de ciclo.
Soa a pausa para respirar.
Para olhar para trás sem nostalgia excessiva.
Final quase silêncio
No café alguém fecha um livro.
A porta range. A chuva abranda.
O filme acaba.
O som fica.
Mais do que imaginámos.
Talvez seja só isso.


















