Trinta e cinco anos depois da primeira ideia ganhar forma em Ponta Delgada, os Passos Pesados continuam a olhar para o percurso com a mesma inquietação que marcou o início. O aniversário passou a 2 de fevereiro sem palco nem celebração pública. Não por acaso, mas por convicção. Para a banda, as datas contam menos do que o momento certo para fazer barulho, com intenção e verdade.

A comemoração real acontece hoje, dia 7 de fevereiro, à noite. É aí que o passado e o presente se cruzam sem nostalgia decorativa. Nesta entrevista, os Passos Pesados falam da origem do projeto, das escolhas que nunca estiveram em causa, do peso dos palcos, da persistência como método e da vontade de continuar a caminhar passo a passo. Luz baixa. Som alto. Como sempre foi.

Quando pensas no final de março de 1990, no momento em que a banda começou a ganhar forma, o que te surge primeiro. Uma imagem concreta, um som, uma sensação no corpo.
Surge primeiro um som do rock que se ouvia na altura, o gosto por essa sonoridade e, consequentemente, o querer ser parte dessa tendência musical.

O primeiro concerto, a 2 de fevereiro de 1991, na Discoteca Cheer’s, ainda vive em vocês de que maneira. Há algum detalhe dessa noite que nunca tenha desaparecido.
Relembro essa tarde e noite como se fosse hoje. Os nervos à flor da pele, o querer que nada falhasse, a expectativa de como o público iria reagir ao concerto e à novidade de ser um concerto na sua íntegra de originais em português. O medo de que musicalmente e tecnicamente nada falhasse e a vontade de que fosse um projeto para se manter durante muitos anos, e não apenas mais um a chegar e a partir em muito pouco tempo. Todas essas preocupações mantêm-se vivas em cada momento dos Passos Pesados. Apesar da solidez que ganhámos com os anos, sentimos esses detalhes bem presentes em cada concerto que damos, embora hoje em dia com mais certezas do que nesse dia de estreia.

Ser uma banda de rock nos Açores, a tocar apenas originais em português, foi desde o início uma decisão consciente ou algo que simplesmente nunca foi posto em causa.
O propósito dos Passos Pesados, desde o seu início, foi o de tocar apenas originais em português. Foi uma condição, foi o querer construir algo nosso dentro do estilo. Nunca nos passou pela cabeça cantar noutra língua ou fazer dos Passos Pesados uma banda de covers. Nunca esteve sequer em questão. Sabíamos o que queríamos e não havia a mínima hipótese de pensar de forma diferente.

Ao longo destes 35 anos, o que sentes que mudou mais em vocês enquanto pessoas e músicos, e o que permanece surpreendentemente igual.
Muito mudou, mas muito permanece igual. Passo a explicar. Enquanto homens, crescemos, aprendemos a lidar uns com os outros no seio do grupo, aprendemos a lidar de outras formas com os nossos seguidores e com o público em geral. Ajustámos a nossa comunicação e adaptámo-nos às novas tendências e gerações. Enquanto músicos, tivemos de crescer e aprender mais. Por outro lado, nunca deixámos de lado os nossos propósitos, nem colocámos em causa, com o passar dos anos, se valeria a pena continuar ou se o nosso estilo ainda tinha consumidores e seguidores. Mantivemos sempre bem viva aquela força e persistência inicial, a vontade de vingar no panorama musical da região e a intenção de deixar caminhos abertos a outros que possam aparecer, servindo assim de motivação. O amor pela música permanece intocável, assim como os nossos propósitos iniciais.

Olhando para os onze álbuns editados, há algum disco que represente de forma mais clara uma viragem na história da banda.
No que respeita a sonoridades, posso dizer que temos dois álbuns que representam viragens, embora nenhum de forma radical. Diria que o “Vidas”, que expressa uma sonoridade de quinteto com teclas, e depois o “Vinil”, este último a encaminhar-nos para a sonoridade de trio que hoje em dia apresentamos.

Com tantos palcos percorridos, desde salas pequenas até momentos como o Estádio da Luz, o que é que a estrada vos ensinou que nenhum ensaio ensina.
O que nos ensinam os palcos? A maior lição que daí posso tirar é que enfrentar 100, 1000 ou 10.000 pessoas nunca é igual a estarmos numa sala de ensaio descontraídos. Estar num palco é sinal de que alguém está a julgar, de que alguém nos está a apreciar. A confiança a mais pode por vezes ser traiçoeira. Mesmo estando bem preparados, a simples presença de alguém muda tudo. A última lição é que, independentemente do número de pessoas que nos estejam a ver e a ouvir, devemos ter sempre o maior respeito por esse público.

Sentem que o contexto cultural dos Açores foi um desafio, uma identidade ou as duas coisas ao mesmo tempo ao longo do vosso percurso.
Acho que foi e continua a ser mais um desafio, pois as nossas raízes culturais não são propriamente o rock urbano. Ainda assim, assumimos esse estilo, que se desenvolveu mundialmente e acabou por se tornar a nossa identidade.

Ao verem hoje novas bandas açorianas a cantar em português, sentem que os Passos Pesados ajudaram, de alguma forma, a abrir esse caminho.
Certamente que sim. Cada banda que ouço a cantar em português, aqui nos Açores, dá-me uma enorme alegria, pois é como se a nossa mensagem se estivesse a expandir, como se uma família estivesse a crescer. Não necessariamente no nosso estilo, mas no nosso propósito de criar originais na língua de Camões.

O reconhecimento institucional recebido ao longo dos anos mudou alguma coisa na forma como olham para a vossa própria história.
Certamente que sim. Sinto que algumas entidades nos olham de forma diferente, sentem que este projeto vingou mesmo e que continuamos a trabalhar arduamente para que a história da música feita nos Açores mude. Daí muito do reconhecimento institucional, embora ainda exista quem finja não nos reconhecer. A mim isso não me incomoda, pois estamos na música porque gostamos do que fazemos e não para sermos reconhecidos.

Ao estarem agora a trabalhar no décimo segundo álbum, o que vos continua a motivar criativamente depois de tanto tempo juntos.
O que nos continua a motivar é sentirmos que estamos cada vez a evoluir mais, tanto ao nível das canções como ao nível técnico. Individualmente, sentimos que estamos num constante desbravar de caminho. Daí a nossa máxima de caminharmos passo a passo e não tudo de uma só vez. O gozo é constante, porque diariamente vamos conquistando algo novo.

Depois destes 35 anos, olhando para o futuro, o que é que ainda gostavam de fazer de novo. Que desafios, sonhos ou experiências sentem que ainda fazem falta na vida dos Passos Pesados.
Sentimos que já podíamos terminar, que já fizemos o nosso caminho, mas por outro lado sentimos que ainda nos falta fazer tudo. Daí a motivação para, diariamente, irmos encontrando novos desafios e novos objetivos. O que nos falta fazer é simples. Viver o amanhã, sabendo que hoje já passou, caminhar passo a passo, fazendo o que mais gostamos. Música.