Há músicas que se organizam como cidades bem planeadas, com ruas previsíveis e destinos claros. E há o free jazz, que prefere ser floresta: densa, imprevisível, viva.

 

 

Para alguns ouvintes, esta linguagem pode soar a desordem. Para outros, é uma das formas mais puras de liberdade artística. A verdade é que o free jazz não se oferece à primeira escuta. Exige tempo, curiosidade e a disposição para aceitar que nem tudo precisa de uma explicação imediata.
A improvisação livre, tal como certas obras literárias radicais, ganha sentido quando deixamos de procurar uma lógica externa e permitimos que a música imponha o seu próprio pulso. Entre explosões de energia, silêncios carregados e melodias que surgem apenas para desaparecer, o género constrói um espaço onde tudo pode acontecer. É uma arte que se faz no instante e que vive da tensão entre risco e descoberta.

A dificuldade de começar num mundo onde tudo está disponível

Hoje, o problema já não é encontrar música. É escolher. A abundância digital tornou o acesso ilimitado, mas também tornou mais difícil saber por onde entrar. No caso do free jazz, a dispersão histórica das gravações, muitas delas editadas em tiragens mínimas, torna o desafio ainda maior.
É neste contexto que surge Now Jazz Now, de Thurston Moore, Byron Coley e Mats Gustafsson. O livro reúne cem gravações essenciais produzidas entre 1960 e 1980, período em que o género se expandiu com uma vitalidade quase anárquica. Mais do que um guia, é um gesto de partilha. Os três autores, conhecidos pela dedicação obsessiva aos arquivos mais obscuros, oferecem aqui um mapa possível para quem quer compreender este universo.

Thurston Moore e a arte de abrir portas

Moore, figura central do rock alternativo, sempre tratou o free jazz como parte da sua própria gramática musical. Ao longo da carreira, apresentou músicos de improvisação a públicos que nunca esperariam ouvir saxofones em combustão antes de um concerto de rock. Nem sempre foi recebido com entusiasmo, mas muitas pessoas descobriram ali uma música que nunca teriam encontrado sozinhas.
Ao lado de Gustafsson, um dos nomes mais inquietos da improvisação europeia, e de Coley, escritor e editor profundamente ligado ao underground americano, Moore constrói neste livro uma narrativa que é tanto histórica como pessoal. Não se limita a listar discos. Revela ligações, afinidades e influências que atravessam décadas.

Porque esta música continua a ser necessária

O free jazz não é um género que se consuma em distração. Exige atenção e disponibilidade para o inesperado. Mas é precisamente essa imprevisibilidade que o mantém relevante. Cada gravação é um documento de liberdade, de risco e de experimentação. Num tempo em que a música tende a ser moldada por algoritmos e previsibilidade, esta tradição lembra-nos que ainda existem territórios onde a criação acontece sem rede.
Now Jazz Now funciona como convite e bússola. Para quem chega pela primeira vez, oferece pontos de partida sólidos. Para quem já conhece o terreno, abre novas portas e recupera outras que estavam esquecidas. É um lembrete de que a música continua a ser um espaço onde o desconhecido pode ser uma promessa, não uma ameaça.

Playlist: Respirar no Caos – Free Jazz 1960–1980

(15 temas essenciais para editar no Spotify)

1. Ornette Coleman – Lonely Woman  
2. John Coltrane – Ascension (Edition II)  
3. Albert Ayler – Ghosts (First Variation)  
4. Sun Ra – The Magic City  
5. Pharoah Sanders – The Creator Has a Master Plan  
6. Cecil Taylor – Steps  
7. Don Cherry – Brown Rice  
8. Art Ensemble of Chicago – Theme de Yoyo  
9. Anthony Braxton – Composition 23B  
10. Marion Brown – Capricorn Moon  
11. Sam Rivers – Beatrice  
12. Alice Coltrane – Journey in Satchidananda  
13. Archie Shepp – Blasé  
14. Roscoe Mitchell – Nonaah (Solo)  
15. Wadada Leo Smith – Reflectativity