O Radar da Semana nasce para escutar, não para correr. Não tenta fechar a semana musical nem alinhar novidades. Escolhe um ponto. Uma música. Um momento que pede tempo. Às vezes basta uma canção. Outras vezes é preciso olhar para mais do que uma, perceber o sítio exato onde um artista está parado a pensar. Radar de Sons sai às quartas-feiras e aos sábados.

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Esta semana, o radar fixa se em Slow J.
“Vândalos” não entra a empurrar portas. Entra com cuidado. Fecha se sobre si própria. Há ali um controlo quase defensivo, como se a canção não confiasse totalmente em quem a ouve. O instrumental mantém tensão, mas não a resolve. Sustém. A voz chega medida, sem pressa, como se cada frase tivesse peso suficiente para não precisar de sublinhado. Nada aqui quer aplauso rápido. Quer ficar.
O interesse de “Vândalos” não está tanto no impacto imediato, está no que denuncia sobre o momento do artista. Slow J já passou a fase da afirmação, da prova, da ocupação de espaço. Isso ficou para trás. O que se sente agora é gestão de território. Escolha. Edição. O que dizer e, talvez mais importante, o que deixar de fora. Não há vontade de representar ninguém. Não há discurso maior. Há uma observação virada para dentro.
Essa contenção torna se mais clara quando colocada ao lado de “Serenata”. Onde “Vândalos” fecha, “Serenata” abre um pouco mais. Há melodia, há exposição emocional, há espaço para a canção respirar sem se proteger tanto. Não se anulam. Funcionam em conjunto. Dois gestos diferentes, o mesmo corpo a testar limites entre intimidade e controlo.
Esse contraste ajuda a perceber porque Slow J continua a importar num contexto cheio de respostas rápidas. Não há pressa. Não há corrida. Há caminho escolhido com cuidado.
Este Radar da Semana não é sobre barulho. É sobre atenção. Sobre um artista que ajusta o passo e segue, mesmo quando ninguém está a pedir explicações.


















