Um concerto pode servir apenas para apresentar um disco. Ou pode transformar as canções em matéria elétrica, imprevisível, quase indomável.

Foi isso que aconteceu nas duas noites em nome próprio nos Coliseus de Lisboa e Porto, quando 2000 A.D. saiu definitivamente do estúdio para ganhar outra dimensão diante de uma sala cheia.
“Kuchisabishii” surge agora nas plataformas digitais numa versão gravada ao vivo no Coliseu dos Recreios. O lançamento antecede a transmissão do concerto pela RTP, marcada para 3 de março, numa produção com realização de Filipe Vasconcelos que documenta cerca de duas horas de intensidade, detalhe e partilha.
Entre conceito e pulsação
A palavra que dá título à canção continua a intrigar. “Kuchisabishii” remete para a ideia de comer por vazio emocional, um gesto que nasce da ausência e não da fome real. Sobre essa camada temática, o autor já falou amplamente. O que raramente explicou foi a arquitetura musical por trás da faixa.
Na sua própria descrição, há um diálogo improvável entre Tito Puente, Jane’s Addiction e Beck. Referências que parecem incompatíveis, mas que aqui se encontram numa construção rítmica tensa, cheia de balanço e fricção. Ao vivo, essa mistura deixa de ser apenas conceito e passa a ser corpo, suor, respiração coletiva.
A peça que faltava em palco
Durante um ano, a canção foi tocada apenas com a banda. Faltava-lhe a configuração pensada em estúdio. No Coliseu, essa versão finalmente ganhou forma com a entrada de Margarida Campelo, cuja presença foi determinante para organizar o aparente caos criativo da música.
Harmonizada e harmonizante, Campelo não se limitou a acrescentar vozes. Deu direção, ampliou dinâmicas e ajudou a galvanizar não só a banda, mas também o coletivo vocal “Os 12 Ao Todo” e a própria sala. A gravação agora editada capta essa energia crua, contagiante, onde cada crescendo parece empurrar o público para dentro da canção.
Um alinhamento que revisita caminhos
Embora o foco estivesse naturalmente em 2000 A.D., o espetáculo percorreu diferentes momentos do percurso do cantautor. A presença de convidadas como Manuela Azevedo, Gisela João e Milhanas trouxe novas leituras a temas já conhecidos.
“O Mundo” ganhou outra respiração, “Canção de Água Doce” revelou novas camadas e “Um Dia Depois”, escrito para Gisela João, conheceu ali a sua primeira interpretação pública. Cada colaboração funcionou como extensão natural do universo do disco, reforçando a ideia de comunidade artística que tem marcado esta fase.
A estrada continua
A edição de “Kuchisabishii” ao vivo não é apenas um registo comemorativo. É uma afirmação clara de que a força destas canções reside na sua execução diante de pessoas reais, num espaço partilhado. A digressão de 2000 A.D. continua a percorrer o país, mantendo o disco em movimento e em transformação constante.
Se a versão de estúdio já revelava ambição estética e conceptual, o registo captado no Coliseu mostra algo mais direto e visceral. Uma canção complexa, feita de referências improváveis, encontra finalmente o seu equilíbrio na tensão do palco. E nesse equilíbrio, paradoxalmente instável, reside o seu verdadeiro impacto.
