Tsunamiz: “A tensão tem de sair de alguma forma e prefiro que aconteça através da música”

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Nem todas as canções nascem para aliviar. Algumas aparecem como reação física ao caos, ao confronto e à necessidade de transformar experiências difíceis em qualquer coisa que consiga respirar cá fora. “Apocalypsing”, o novo single de Tsunamiz, entra exatamente nesse território. Mais cru, mais direto e menos interessado em esconder impacto emocional.

Ao longo desta conversa, Bruno Sobral fala sobre bullying, agressividade sonora, liberdade criativa e a obsessão constante de continuar a evoluir sem perder identidade. Entre guitarras, beats, punk, eletrónica e uma ética DIY levada ao limite, o músico revela também um lado mais exposto sobre o processo de criar num país onde independência continua muitas vezes a significar resistência diária.

O resultado é uma entrevista sem filtros excessivos, onde se percebe que “Apocalypsing” não funciona apenas como avanço de um novo disco. Funciona como sintoma de uma fase mais intensa, mais frontal e talvez mais consciente daquilo que Tsunamiz quer realmente construir daqui para a frente.

“Apocalypsing” nasce de experiências intensas. Em que momento percebeste que essa história precisava de virar música?

Como se costuma dizer, aquilo que tem de ser tem muita força. No meu processo criativo raramente há um plano definido. Gosto que as coisas aconteçam de forma espontânea e intuitiva.

No caso de “Apocalypsing”, tudo começou com o beat e os synths. Não consigo dizer exatamente o que estava a sentir naquele momento, mas sei que foi uma descarga emocional que precisava de sair. A partir daí, quando comecei a cantar e a experimentar guitarra sobre a ideia base, a música começou a ganhar forma, sobretudo ao nível da métrica e da estrutura, enquanto a letra ia surgindo quase ao mesmo tempo.

A certa altura percebi que aquilo que estava a aparecer não era abstrato. Vinha de experiências reais com pessoas que, de forma inesperada, projetaram ódio e violência, verbal e física, sobre mim. Não gosto de dar demasiada atenção a esse tipo de situações, mas também não sou alguém que fique em silêncio.

A música acaba por ser o lugar onde isso tudo se transforma. Só percebi que essas histórias iam mesmo virar canção quando já estava dentro dela, a cantar frases que estavam a surgir naturalmente. Foi aí que entendi que “Apocalypsing” já estava a acontecer.

A tua forma de escrever parece cada vez mais direta. Isso foi uma decisão consciente ou aconteceu naturalmente ao longo do tempo?

Neste último single, a escrita é de facto mais direta, mas não foi uma decisão consciente, nem diria que seja uma tendência. Tento sempre servir aquilo que sinto que cada canção pede.

O processo também varia muito. Às vezes a letra nasce ao mesmo tempo que a melodia, quase de forma instintiva. Outras vezes só aparece mais perto do fim, quando a música já está definida.

Se sinto que um tema pede algo mais subtil ou complexo, escrevo bastantes versos que encaixam na métrica e depois faço uma seleção. Noutras situações, metade da letra já surge enquanto estou a cantar e a construir a melodia.

No fundo, ser mais direto ou mais abstrato não é uma regra. Depende da emoção e da linguagem que a própria música me sugere.

Cresceste entre referências de rock e eletrónica. Quando olhas para trás, que artistas ou discos sentes que ainda estão dentro do que fazes hoje?

Todas as canções que realmente me marcam são, no fundo, canções que eu gostava de ter feito. A minha música acaba por refletir isso, tudo o que gosto, com os seus méritos e imperfeições.

Hoje em dia consumo mais canções do que artistas. Ando constantemente à procura daquela música certa para um determinado momento, e isso leva-me a explorar muita coisa diferente.

Curiosamente, isso é o oposto da fase que tive quando era mais novo, em que era bastante fechado, quase militante, e rejeitava tudo o que não fosse rock alternativo ou mais pesado. Mesmo coisas que até me soavam bem, eu afastava. Hoje isso desapareceu completamente. Ouço de tudo, de forma natural, sem estar a tentar provar diversidade.

Há nomes que continuam muito presentes no que faço, mas influenciam-me em camadas diferentes.

Ao nível melódico e de composição, sinto muito a marca de Nirvana, Pixies, Radiohead, The Doors, Bob Marley, The Beatles ou PJ Harvey.

Depois, ao nível da produção e dos beats, há uma influência forte de Wu-Tang Clan, Dr. Dre e The Prodigy, juntamente com a base mais clássica de Beethoven, Mozart e Chopin.

Nas guitarras, há sempre um lado mais físico e expressivo que vem de Jimi Hendrix, Tom Morello, Josh Homme e Slash.

Depois houve fases muito marcadas: Marilyn Manson, Sonic Youth e Queens of the Stone Age; a fase electroclash com Peaches e Fischerspooner; o nu rave de Klaxons e LCD Soundsystem; e ainda influências dos anos 80, synthpop e pós-punk, como Alphaville, Depeche Mode e Joy Division.

Mais recentemente, identifico-me com artistas como Sleaford Mods, N8NOFACE, JPEGMAFIA ou Molly Nilsson, pessoas com identidade forte, que desafiam o convencional e mantêm uma ética DIY.

No fim de contas, tudo isso entra no que faço, mas nunca de forma consciente ou calculada. É mais como um filtro. Tudo o que me marcou acaba por sair, de alguma forma, nas canções.

Lançaste vários álbuns num curto espaço de tempo. O que te empurra a manter esse ritmo quase constante?

Há vários fatores que me empurram para esse ritmo. O primeiro é simples: componho há quase 30 anos. Tenho uma quantidade enorme de ideias, rascunhos e canções acumuladas, e continuo a criar constantemente.

Apesar de soar um pouco místico, vejo a criação dessa forma, quase como se fôssemos antenas. Quando estou a ensaiar, coloco-me a jeito, e às vezes basta um acorde na guitarra para surgir uma música nova. Outras vezes vem de uma necessidade mais emocional: sento-me em frente ao Logic Pro, faço um instrumental e nasce mais uma ideia.

O problema nunca foi falta de material. É o contrário. Não consigo lançar ao ritmo a que crio. Por isso tento aproximar-me o mais possível: um álbum por ano, às vezes mais curtos, não por falta de canções, mas por falta de tempo para fechar tudo.

Depois há um lado pragmático. Sendo compositor, intérprete e produtor, cada música que lanço é também uma fonte potencial de rendimento a longo prazo. Para um artista independente em Portugal isso é importante, e não vejo problema nenhum em assumir isso. O que não faria sentido para mim era deixar de fazer a música que quero.

Por outro lado, hoje tudo é mais acessível: home studios, distribuição digital… isso permite lançar de forma mais direta e consistente.

E há também uma coisa muito simples: quanto mais faço, melhor fico. É isso que sinto. É para isto que nasci.

Este novo single tem uma energia mais agressiva. Sentiste necessidade de ir para um lado mais cru ou isso apareceu durante o processo?

Os meus discos sempre tiveram um lado mais agressivo. A influência do punk e do hardcore faz parte de mim e dificilmente vai desaparecer, pelo menos enquanto essa energia continuar a fazer sentido. Daqui a 20 anos pode ser diferente, mas neste momento ainda está muito presente.

No caso de “Apocalypsing”, essa agressividade não foi planeada. O instrumental até podia ir noutra direção, mas quando comecei a cantar e a tocar guitarra por cima, a música puxou-me para esse lado mais cru. Foi uma reação instintiva, não uma decisão calculada.

Quando a emoção pede esse tipo de intensidade, não tento suavizar. Deixo acontecer.

A fusão entre guitarras e eletrónica já é uma marca tua. Ainda te surpreendes com essa mistura ou já faz parte do teu instinto?

A guitarra é uma extensão minha desde os 10 anos. Já a eletrónica apareceu mais tarde, mas acabou por fazer todo o sentido, não só pela música que queria fazer, mas também porque me deu autonomia total para criar, produzir e materializar ideias sem depender de mais ninguém.

Percebo muito o que o JPEGMAFIA diz quando afirma que o instrumento dele é o DAW. Hoje em dia, esse espaço, o software de produção, é onde tudo pode acontecer, e o limite é mesmo a criatividade.

Respondendo diretamente: já não me surpreendo tanto com a mistura em si. Também porque, sendo honesto, não é algo novo por si só.

O que me interessa não é a fusão como conceito, mas o que cada canção pede. Há músicas que funcionam só com guitarra e voz, outras só com eletrónica e outras nesse território híbrido.

Não quero que essa mistura seja uma gimmick. Se aparece, é porque faz sentido. Se não aparecer, também está tudo certo.

Trabalhas com uma lógica muito DIY. Isso dá-te mais liberdade ou também traz limites que tens de contornar?

Como em tudo, há um lado positivo e outro negativo. O DIY dá-me uma liberdade total, mas também traz limites que tenho de aprender a contornar.

No meu caso, vem de dois sítios. Por um lado, sempre tive um lado muito controlador. Desde miúdo, quando fazia canções de guitarra e voz, já imaginava os arranjos e a produção final, mesmo sem saber como lá chegar. Por outro, também nasce de necessidade e de limitações financeiras.

Ao longo dos anos isso obrigou-me a aprender tudo: produção, gravação, agenciamento, assessoria, publishing, sincronização… coisas que nunca pensei dominar. E hoje sinto-me ligado a todas essas áreas, não só à música.

Gosto muito desse controlo criativo total. É exigente e cansativo, mas também muito recompensador.

E mesmo que no futuro venha a delegar mais, ter esse conhecimento dá-me uma base para perceber com quem trabalhar e manter um certo nível de exigência.

Ao mesmo tempo, há essa consciência: sozinho consigo mover-me mais rápido; com a equipa certa provavelmente conseguiria ir mais longe.

Não fecho portas a nada: colaborações, editoras, contratos, desde que estejam alinhados com a liberdade e a honestidade do projeto.

Porque, a partir do momento em que isso se perde, deixa de ser arte.

O novo álbum já está em construção. Que tipo de ambiente ou estado emocional está a marcar este disco?

Tendo em conta o período emocional que estou a atravessar e as músicas que já comecei a selecionar para este novo trabalho, sinto que vai ser um disco mais diverso do que o anterior.

Musicalmente, há um regresso a várias linguagens que já explorei no passado. Talvez um reencontro com o espírito de “Kultur Is Dead”, com influências que vão do big beat ao post-punk, passando pelo rock psicadélico e synthpunk, sempre com uma sensibilidade pop por trás.

Liricamente, sinto que será um disco mais direto e exposto, mas também com momentos de nuance e ambiguidade. Uma espécie de “pôr os pratos limpos”: dizer de forma clara o que vai cá dentro, tanto a nível emocional como social e até económico.

É um trabalho que nasce de um momento de fricção, mas também de clareza.

Há uma linha entre tensão e libertação neste tema. Esse equilíbrio é algo que procuras de forma consciente?

Não diria que é algo consciente, no sentido de procurar esse equilíbrio de forma racional. No meu caso é sempre muito faixa a faixa. A música é que vai ditando.

A tensão, quando aparece, tem de sair de alguma forma, e prefiro que isso aconteça através da música do que noutro lado qualquer. É quase um espaço onde essas emoções podem ser canalizadas sem magoar ninguém.

Às vezes, claro, há decisões mais conscientes, sobretudo quando gosto de subverter expectativas: inverter uma lógica lírica ou cruzar ritmos que, à partida, não seriam associados entre si.

Colocar um groove afrobeat num contexto indie, ou elementos de kuduro sobre rock alternativo, por exemplo.

Mas mesmo isso acaba por não ser só um gesto conceptual. Muitas vezes é a própria música que pede essa mistura.

E, no fundo, também é uma forma de mostrar que a música pode unir linguagens diferentes e que muitos dos preconceitos que temos em relação a géneros acabam por ser mais culturais do que musicais.

Com nove álbuns, como evitas repetir-te ou cair em zonas de conforto?

O que mais me preocupa não é tanto repetir-me a nível de produção ou de estruturas, mas sim a nível melódico, tanto nas minhas próprias melodias como, sobretudo, nas de outros artistas.

E isso nem sempre é simples, porque a música que ouvimos fica muitas vezes enterrada no subconsciente e pode regressar com a ilusão de ser nossa.

O resto, ritmos e abordagens, inevitavelmente acaba por ter zonas de repetição, mas isso não me bloqueia.

Liricamente tento ter alguma atenção para não me repetir, mas se uma música pedir uma frase que já usei antes, não me prendo a isso.

O mais importante para mim é que cada canção tenha identidade própria. Faço esse exercício de comparação com o meu próprio catálogo para evitar redundâncias. Cada tema tem de justificar a sua existência.

Depois há também uma coisa interessante: estou constantemente a sentir evolução.

Em cada produção, mistura ou masterização, há sempre um momento de dúvida, em que sinto que poderia estar melhor ou que talvez não devesse ser eu a fazer essas coisas. Mas encaro isso como parte do processo. São dores de crescimento.

No fim, acabo a música, aprendo alguma coisa com ela e sigo para a próxima.

Quando pensas no que vem a seguir, sentes que estás a aproximar-te de uma identidade final ou ainda estás longe de fechar esse ciclo?

Sei claramente o que quero fazer, e até já tenho alguns dos próximos álbuns pensados de forma bastante completa, com seleção de músicas definida.

Em termos de identidade, não me vejo como um artista de fases muito marcadas ou de personas, à maneira de David Bowie. Posso explorar conceitos diferentes de disco para disco, mas de forma mais subtil.

O que quero construir é uma obra múltipla e diversa, que atravesse géneros, eras, pontos de vista e até filosofias diferentes, mas mantendo uma identidade consistente no meio dessa multiplicidade. Uma espécie de identidade estável dentro de um corpo instável.

Ao mesmo tempo, sinto que não estou propriamente num processo de procura, mas sim de aperfeiçoamento dessa identidade: o compositor, produtor e intérprete que vai refinando a forma como partilha as suas ideias musicais e líricas com o mundo.

Claro que, com mais meios, isso poderia expandir-se também ao espetáculo ao vivo, ao vídeo, à luz, a toda a componente visual.

Mas, acima de tudo, interessa-me manter o controlo criativo.

De certa forma, a referência que me interessa não é tanto o lado mediático, mas sim artistas com uma visão muito própria e autonomia total sobre o que fazem.

Se quiseres resumir: quero ser alguém com visão e controlo absoluto sobre o seu universo criativo.

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