Há livros que parecem pedir música. Não porque falem dela, mas porque funcionam como uma sequência de estados de espírito. Um alinhamento emocional. Tu & Eu entra aqui sem esforço.

EDIÇÃO: Singular
À superfície, é um romance sobre um casal. Conversas rápidas. Afeto. Irritação. Pequenos conflitos que crescem porque ninguém diz exatamente o que quer dizer. Nada de novo. Mas o interesse não está no que acontece. Está em como acontece. No ritmo. Na forma como a história avança aos solavancos, quase como uma mixtape feita a dois, com escolhas discutidas e faixas que um queria saltar e o outro não.
O livro foi escrito a quatro mãos e isso sente-se logo. Não como curiosidade técnica, mas como estrutura real. Dois pontos de vista. Duas vozes que se cruzam, chocam, afastam-se. Às vezes parecem falar da mesma coisa, mas não estão. Cada um está noutra faixa. Noutra frequência.
E isso aproxima o livro da música mais do que parece. Porque numa relação, tal como numa banda, o problema raramente é a falta de talento. É a escuta. Saber quando entrar. Quando ficar em silêncio. Quando aceitar que o outro está a puxar a canção para um sítio diferente.
A escrita é direta. Sem grandes truques. Há humor, mas não é para brilhar. Surge quase como defesa. Uma maneira de aliviar o peso do que não se resolve. Como aqueles momentos numa canção em que a melodia parece leve, mas a letra está a dizer outra coisa.
Há também repetição. Discussões que voltam. Frases que regressam. Sensações de déjà vu. Como se a relação estivesse sempre a cair no mesmo refrão. Isso pode cansar o leitor. Mas é aí que o livro acerta. Porque relações cansam. E não há muito a fazer sobre isso.
Tu & Eu não tenta ser profundo no sentido clássico. Não quer explicar o amor. Quer mostrar o desgaste do dia a dia. As expectativas que não são ditas. A frustração miúda. O desconforto constante de tentar acertar e falhar outra vez. E isso soa honesto.
Há também a questão do tempo. O livro é dos anos 90. Nota-se. Mas não envelheceu assim tanto. Mudaram os meios, não mudou o ruído. As discussões agora passam pelo telemóvel, não pela sala. Mas a dificuldade em traduzir sentimento em palavras continua igual.
Ler este livro hoje é um pouco como ouvir uma cassete antiga. Há nostalgia, sim. Mas há também reconhecimento. A sensação de que já estivemos ali. Ou estamos.
Para a Musicatotal, faz sentido falar de Tu & Eu. Porque a música não vive isolada. Está no modo como as pessoas se ligam, se afastam, se desencontram. A lógica do duo, do diálogo constante e imperfeito, está tão presente numa relação como numa banda.
No fundo, este livro funciona como um álbum a duas vozes. Com faixas que ficam. Outras que se repetem demais. Momentos em que apetece carregar no stop.
Mas a música continua. Mesmo depois de fechar o livro.


















