Há nomes que crescem longe do centro e, ainda assim, acabam por redefinir o mapa. DJ Casanova é um desses casos.

Nascido na Ilha Terceira e radicado em Ponta Delgada desde 2000, construiu uma carreira sólida entre cabines, estúdios e estruturas próprias, afirmando-se como uma das principais referências do Afro House nos Açores. Com mais de duas décadas de percurso, milhões de streams acumulados e uma visão clara para o futuro da música açoriana, fala aqui sobre o início, os palcos que o marcaram e o que ainda o move.
Cresceste na Ilha Terceira e mudaste para Ponta Delgada em 2000. Que memórias guardas das primeiras noites como DJ e em que momento percebeste que isto podia ser mais do que um hobby?
Comecei a ouvir música muito novo. Aos 15 anos, o meu pai percebeu o quanto eu gostava dos vinis dele e decidiu oferecer-me uns gira-discos Technics. Foi aí que comecei a aprender técnica e nasceu uma enorme paixão pela música dos anos 90, hip hop, pop, R&B e a chamada “música de discoteca”, que hoje conhecemos como House Music.
Em 2000 mudei-me para Ponta Delgada, mas já era DJ desde 1996 e trazia alguma experiência. Aqui encontrei um público com uma forte ligação à música latina e, com a ajuda e amizade de outros DJs, fui evoluindo e adaptando-me. Foi uma fase muito especial e importante, em que comecei a perceber que isto não era apenas um hobby, era o meu caminho.
Começaste aos 16 anos. O que te fascinou na House Music nessa altura e o que ainda hoje te prende ao género?
O que sempre me fascinou na House Music foi a emoção que ela transmite. As batidas fortes, as melodias envolventes, os pads atmosféricos e as vozes cheias de sentimento criam algo único. É como montar um puzzle em que cada elemento tem um papel essencial.
Como DJ e produtor, a House Music dá-me liberdade para criar emoções e conectar-me com as pessoas. Esse sentimento continua a arrepiar-me hoje, tal como no início.
Ao longo de mais de duas décadas passaste por muitos espaços icónicos em São Miguel. Há alguma noite que ainda te arrepie quando te lembras? Porquê?
Uma das noites mais marcantes foi em 2012, no Pavilhão do Mar, quando tive a honra de abrir para o grande artista Bob Sinclar. Estar perante milhares de pessoas e sentir aquela energia foi algo inesquecível.
Momentos como esse ficam para sempre na memória e dão ainda mais motivação para continuar.
Tocar nos Açores é diferente de tocar no continente ou no estrangeiro? O público muda assim tanto ou a energia é universal?
Cada lugar tem a sua identidade, mas a energia da música é universal. Tocar fora dos Açores é sempre uma experiência especial, porque significa que o teu trabalho chegou mais longe.
Nos Açores, existe uma ligação muito forte com o público. As pessoas sentem a música de forma genuína, e isso cria momentos únicos. Tenho muito orgulho em tocar para o público açoriano, que sempre me apoiou desde o início.
A tua afirmação no Afro House foi natural ou estratégica? Houve um ponto de viragem em que decidiste que esse seria o teu caminho?
Foi um processo natural. Ao longo da minha carreira, estive sempre ligado a estilos com influência africana, como kizomba, kuduro e outros ritmos. O Afro House surgiu como uma evolução natural do meu percurso dentro da House Music.
É um estilo que me permite expressar emoção, cultura e identidade e, hoje, é uma parte muito importante do meu som.
O remix de “Sinfonia 2012” foi o início da tua vertente como produtor. O que mudou na tua visão artística quando passaste da cabine para o estúdio?
Foi um grande desafio no início. Tive a sorte de aprender com pessoas experientes, como o produtor Cyberx, que me ajudou a dar os primeiros passos na produção.
Passar da cabine para o estúdio mudou completamente a minha visão. Como DJ, interpretas música. Como produtor, crias algo do zero. É um processo muito pessoal, em que transformas emoções em som. Isso fez-me crescer muito como artista.
Já partilhaste cabine com nomes como Bob Sinclar e vários produtores nacionais e internacionais. O que aprendeste nesses momentos que levaste contigo para a tua própria carreira?
Aprendi que o mais importante é continuar a evoluir e manter o foco. Partilhar momentos com outros artistas permite trocar experiências, aprender novas perspetivas e crescer.
Também me mostrou que a música é uma linguagem universal que une pessoas de diferentes culturas.
Somar mais de 20 milhões de streams é um marco relevante. Para ti, o que pesa mais: números digitais ou pista cheia às três da manhã?
Sou muito grato por cada stream, porque representa alguém que ouviu e sentiu a minha música.
Mas nada substitui a energia de uma pista cheia. Ver as pessoas felizes, a dançar e a viver o momento é a maior recompensa para qualquer DJ. É por isso que faço música.
Fundaste a Nova Rider Records e a Vaidosa Records. Sentiste que era urgente criar estrutura nos Açores para que outros artistas não enfrentassem as mesmas dificuldades que tu?
As editoras nasceram da vontade de ter independência e também de ajudar outros artistas a lançar a sua música com transparência e respeito.
Quero que os artistas tenham apoio, organização e confiança. Acredito que, juntos, podemos fortalecer a música açoriana e criar mais oportunidades.
Estás envolvido na formação de bandas e artistas. O que achas que ainda falta à música açoriana para dar um salto maior em termos nacionais e internacionais?
Os Açores têm muito talento. O que falta, muitas vezes, é mais apoio, mais investimento e mais oportunidades.
Mas acredito que, com dedicação, união e trabalho, os artistas açorianos podem chegar muito longe.
Como defines hoje a tua identidade sonora em três palavras e o que procuras que o público sinta quando ouve um set teu?
Emoção. Energia. Verdade.
Quero que o público sinta felicidade, liberdade e conexão. Que se esqueça dos problemas e viva o momento.
Olhando para trás, o que dirias ao Marco Furtado de 16 anos que começou a tocar em festas privadas? E, olhando para a frente, qual é o próximo desafio que ainda te tira o sono?
Diria para nunca desistir e acreditar no caminho, mesmo quando é difícil.
Hoje, o meu maior desafio continua a ser criar música que toque as pessoas. Cada nova produção é uma nova responsabilidade e é isso que me motiva todos os dias.


















