Segunda-feira, 24 de Agosto de 2026
Análise & Opinião

MÃO: DJ Vibe e Paulo Pedro Gonçalves inauguram nova viagem com “Brasil de Janeiro”

Por Mafalda Matos 12 Fev 2026

Há reencontros que não pedem explicação. Acontecem. Décadas depois de se terem cruzado nos LX-90, dois nomes com peso real na música feita em Portugal voltam a trabalhar lado a lado.

©Kenton Thatcher

 

Não é revivalismo. Não é estratégia de calendário. É outra coisa. A 16 de abril chega o disco de estreia de MÃO. Antes disso, “Brasil de Janeiro” já está cá fora e mostra ao que vêm.

Dois percursos longos demais para caber numa etiqueta

DJ Vibe construiu pistas, noites e reputação internacional quando a cultura de clube ainda precisava de ser defendida. Paulo Pedro Gonçalves fundou os Heróis do Mar e nunca ficou quieto num género só. Rock, jazz, blues. Sempre a mexer.

MÃO nasce por impulso de Tó Pereira. Vontade de continuar a procurar som novo. De testar territórios. Paulo Pedro entra porque traz ruído, textura, história nas mãos. A soma não é óbvia. Ainda bem.

Um single que não pede licença

“Brasil de Janeiro” abre a porta com ritmo quente e pulsação firme. Há referências claras às texturas brasileiras, mas não soa a postal turístico. A electrónica não enfeita. Empurra. As guitarras aparecem e desaparecem como se respirassem dentro da batida.

É um tema feito para pista. BPMs altos, arpejos que insistem, sintetizadores que se esticam sem medo. A house está lá, mas dobrada, torcida, expandida. Não é fórmula. É fricção.

O disco como viagem, mas sem folclore

O álbum homónimo sai a 16 de abril com o selo da Chic Choc Music, editora criada pelos próprios. Oito faixas. Oito paragens. Da América à Ásia, dizem eles. Um mapa desenhado em som.

A ideia é simples no papel e arriscada na prática: absorver linguagens locais sem cair na caricatura. Não copiar, não decorar. Misturar. Deixar que cada faixa tenha identidade própria, mas mantenha um fio condutor. Um gesto. Uma mão.

Entre estúdio e memória

O single foi registado no estúdio de DJ Vibe, em Lisboa. Produção partilhada. Decisões rápidas, outras mais discutidas. Nota-se que há confiança antiga ali, mas também tensão criativa suficiente para evitar conforto.

O vídeo de Richard F. Coelho mistura imagens analógicas de arquivo com a energia digital da música. Não é um simples acompanhamento visual. Amplifica a ideia de viagem, de passado reconfigurado.

MÃO começa aqui. Não como ponto de chegada, mas como abertura. “Brasil de Janeiro” é só a primeira coordenada. O resto ainda está a desenhar-se. E talvez seja isso que interessa.

 

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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