Início Discos Charli XCX reinventa “Wuthering Heights” para o cinema de Emerald Fennell

Charli XCX reinventa “Wuthering Heights” para o cinema de Emerald Fennell

Há discos que chegam como extensão de um filme. Este não. Este entra primeiro na corrente sanguínea e só depois percebemos que está ligado ao grande ecrã.

Crédito: Paul Kooiker

“Wuthering Heights” já está disponível e acompanha a nova adaptação de Emerald Fennell, agora nos cinemas, mas a sensação é outra. Não ilustra. Invade.

Charli XCX pegou numa das histórias mais febris da literatura e decidiu não tratá la com luvas. Cathy e Heathcliff, aqui vividos por Margot Robbie e Jacob Elordi, continuam presos naquela espiral de desejo e autodestruição que atravessa séculos. Só que agora há sintetizadores a respirar por trás das paredes. Há pulsação. Há excesso.

Um clássico mexido por dentro

A versão de Fennell não tenta ser confortável. Nunca tentou, aliás. O romance deixa de ser apenas trágico e passa a ser quase físico, suado, intenso demais. E a música acompanha essa desordem. Não há reverência museológica. Há fricção.

O álbum de Charli oscila entre momentos quase etéreos e explosões que parecem feitas para uma pista de dança num sonho estranho. Não é uma banda sonora tradicional. É um comentário emocional. Às vezes parece que estamos dentro da cabeça de Cathy, outras vezes dentro do colapso.

E isso nota se. Há canções que respiram fundo antes de se atirarem ao abismo. Outras ficam suspensas, como se não quisessem resolver nada. Talvez porque esta história nunca resolve.

Cinema, mas também manifesto pessoal

Ao mesmo tempo, Charli está em “The Moment”, produção da A24 que nasceu de uma ideia sua. Não é detalhe pequeno. É controlo criativo. É alguém da pop a entrar no cinema sem pedir licença.

O filme esgotou rápido após a estreia em Sundance e foi recebido com entusiasmo crítico. Mas mais do que números, interessa o gesto. Charli não está só a fazer música para filmes. Está a ocupar espaço. A testar formatos. A ver até onde consegue esticar a própria imagem.

E percebe se que não é fase passageira.

Uma lista de riscos, não de conforto

Nos próximos tempos, a artista surge ligada a projetos muito diferentes entre si. Terror. Thriller erótico. Fantasia de época. Cinema independente. Não parece haver uma estratégia óbvia de segurança. Parece haver curiosidade.

Talvez seja isso que torna este “Wuthering Heights” mais interessante do que o rótulo de adaptação sugere. Não é nostalgia. Não é tributo limpinho. É uma colisão entre romantismo antigo e ansiedade moderna.

E no meio dessa colisão, fica uma pergunta que atravessa o disco inteiro, mesmo quando ninguém a diz em voz alta. O que é que sobra quando o amor deixa de ser promessa e passa a ser vício.