Há bandas que pertencem a uma década. E depois há os Depeche Mode. Começaram num subúrbio inglês em 1980, rodeados de sintetizadores baratos e ambição quase ingénua.

 

Ninguém ali parecia destinado a estádios. Mas alguma coisa estava a mudar na música britânica, e eles perceberam antes dos outros que as máquinas podiam falar de culpa, fé, desejo. Não era moda. Era necessidade.

O que impressiona hoje não é apenas o tempo que passaram em atividade. É o facto de nunca terem sido cómodos. Quando o público esperava refrões leves, eles mergulhavam na ambiguidade. Quando podiam repetir fórmulas, preferiam arriscar tensão.

Quando o pop começou a ficar desconfortável

O primeiro disco, Speak & Spell, ainda respirava juventude e leveza. Mas a saída de Vince Clarke mudou o rumo. Martin Gore assumiu o leme criativo e puxou a banda para zonas menos luminosas. Foi uma mudança quase silenciosa. Mas decisiva.

Com a entrada de Alan Wilder, a arquitetura sonora tornou se mais rigorosa. Em Black Celebration, já não havia espaço para ingenuidade. Havia atmosfera densa, minimalismo, camadas que pareciam respirar. A eletrónica deixava de ser adereço. Passava a ser cenário emocional.

E talvez aí esteja o primeiro grande corte com o resto da pop da época. Enquanto muitos procuravam brilho, eles procuravam sombra.

O momento em que o mundo escutou

Depois veio Music for the Masses. O título podia soar provocador, mas era quase um manifesto. A banda estava pronta para espaços maiores. O concerto no Rose Bowl, eternizado no documentário 101, mostrou uma coisa clara. Aquela estética alternativa podia encher arenas.

Em 1990, Violator não foi apenas um sucesso. Foi uma afirmação estética. Enjoy the Silence tornou a introspeção um coro coletivo. Personal Jesus misturou blues e eletrónica com uma confiança quase insolente.

De repente, milhões de pessoas cantavam sobre silêncio, fé e desejo como se fossem refrões de verão. E talvez fosse isso que tornava tudo estranho. Não era música fácil. Era emocionalmente carregada.

Quase o fim, mas não

O período de Songs of Faith and Devotion trouxe guitarras, intensidade e excesso. A digressão foi caótica. Dependências, desgaste, tensão interna. A saída de Alan Wilder em 1995 deixou um vazio real. Não era apenas um membro. Era o engenheiro invisível da identidade sonora.

Muitos esperavam o colapso. Mas em 1997, Ultra apareceu como prova de resistência. Mais contido, mais atmosférico. Menos explosivo, talvez. Mas vivo.

A partir daí, a banda deixou de competir com tendências. Passou a existir no seu próprio tempo.

A maturidade e o peso da perda

A morte de Andy Fletcher em 2022 foi um golpe humano. Fletcher não era o compositor principal nem o frontman. Mas era equilíbrio. Era presença constante desde o início.

Em 2023, Memento Mori surgiu como reflexão sobre mortalidade. O título diz tudo. Não há dramatismo gratuito. Há consciência. O disco soa a aceitação. A digressão mostrou algo ainda mais relevante. A ligação com o público continua intacta.

Nos concertos, vê se uma mistura improvável. Pessoas que os seguem há quarenta anos ao lado de jovens que os descobriram no streaming. Não é nostalgia pura. É identificação contínua.

O que permanece

Os Depeche Mode não reinventam a roda a cada álbum. Reinventam a própria forma de existir. A tensão entre a introspeção de Gore e a presença física de Dave Gahan continua a ser o motor central. Um escreve como quem confessa. O outro interpreta como quem exorciza.

Influenciaram o industrial, o techno, o rock alternativo. Mas talvez a influência mais profunda seja outra. Provaram que a música eletrónica pode ser espiritual sem ser literal. Que pode ser sensual sem ser superficial.

Hoje não precisam de provar nada. Mas continuam a tocar como se precisassem. E talvez seja isso que mantém a chama acesa.

Depeche Mode lançam “Depeche Mode: M” e “Memento Mori: Mexico City”