Há qualquer coisa de inquieto em Branko. Nunca parece confortável no mesmo lugar durante muito tempo.

 

Mesmo quando a pista está cheia, mesmo quando o nome já é reconhecido lá fora. A sensação é sempre a de alguém que ainda está a procurar a próxima ligação, o próximo ritmo, a próxima voz.

E talvez seja isso que o distingue. Não é só produtor. É ponte.

Antes do nome próprio, havia um movimento

É impossível falar dele sem passar pelos Buraka Som Sistema. Aquilo não foi apenas uma banda. Foi um choque cultural. Kuduro, eletrónica, Lisboa suburbana, energia quase bruta. De repente, Portugal não estava a copiar tendências. Estava a exportá-las.

Quando o projeto terminou, ficou uma pergunta no ar. O que acontece quando a marca coletiva desaparece? Alguns artistas perdem força. Outros revelam a verdadeira dimensão. Branko escolheu a segunda via.

Não tentou repetir a fórmula. Alargou-a.

O mundo como laboratório

Em Atlas já se percebia a ambição. Colaborações espalhadas por vários países. Ritmos que cruzavam África, América Latina, Europa. Mas não soava a colagem. Soava a conversa. Há diferença.

O mais curioso é que, mesmo quando viaja por geografias sonoras tão distintas, mantém coerência. A produção tem assinatura. Graves firmes, percussão com espaço, respiração entre camadas. Não é caos. É construção.

E ao vivo isso sente-se no corpo. Não é música para ficar parado. É música que pede movimento quase involuntário.

Entre a pista e a pertença

Depois veio Nosso. O título diz muito. Já não é apenas exploração global. É afirmação de identidade partilhada. Comunidade. Ligação.

Há uma maturidade ali. Menos ansiedade em provar, mais confiança em escolher. As colaborações parecem menos estratégicas e mais orgânicas. Como se o processo fosse tão importante quanto o resultado final.

Branko nunca foi apenas DJ de festival. Existe nele uma preocupação quase política com a forma como os ritmos circulam. Quem ganha visibilidade. Quem colabora com quem. Que histórias passam a ter palco.

O peso de representar sem carregar bandeira

Em Portugal, tornou-se símbolo de uma geração que deixou de olhar para fora à procura de validação. Mas ele nunca assume esse papel de forma declarada. Continua a trabalhar, a viajar, a colaborar.

Lisboa está sempre presente, mesmo quando o som parece global demais para ter morada fixa. A mistura cultural da cidade, as heranças africanas, brasileiras, europeias. Está tudo ali. Nem sempre explícito. Mas audível.

E agora

Não há grande anúncio bombástico. Não há promessa de reinvenção radical. O que há é continuidade inquieta. Remisturas, colaborações, atuações internacionais. Uma agenda que nunca fica vazia muito tempo.

Talvez o mais interessante seja isto. Branko não parece interessado em nostalgia, nem mesmo na do próprio passado. O período Buraka não é sombra. É fundação. Mas o foco está sempre no que vem a seguir.

No fundo, ele faz uma coisa simples e difícil ao mesmo tempo. Escuta. Escuta o que está a nascer nas periferias, nas cenas underground, nas cidades que raramente aparecem nos mapas principais da indústria.