Terça-feira, Fevereiro 17, 2026

Carlos Mendes leva “Arquitecto de Sons” ao Coliseu Club a 20 de Fevereiro

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A 20 de Fevereiro, às 21h30, o Coliseu Club abre espaço a um percurso que começou nos anos sessenta e nunca ficou quieto tempo suficiente para virar peça de museu.

 

Sessenta anos depois da primeira subida a palco, o cantor e compositor apresenta um espectáculo que revisita canções conhecidas, sim, mas sobretudo revisita o que elas ainda significam. Não é nostalgia pura. É outra coisa. É insistência. É permanência.

Antes da consagração, a urgência

Em 1963 surgem os Sheiks. Guitarras, energia juvenil, um país fechado que começava a ouvir ecos do exterior. Ele estava lá. Até 1967. Depois, a solo, como quem decide arriscar o próprio nome.

Em 1968 vence o Festival da Canção com “Verão”. Volta a ganhar em 1972 com “Festa da Vida”. Duas vitórias que não foram apenas troféus televisivos. Foram marcação de território. Uma maneira de dizer que a canção portuguesa podia ser popular sem ser banal.

Independência como gesto político

Em 1976, ao lado de Paulo de Carvalho e Fernando Tordo, cria a Toma Lá Disco. Primeira editora independente em Portugal. Parece detalhe histórico, mas não é. Num país em reconstrução, assumir controlo artístico era quase um manifesto.

A partir daí, mais de vinte álbuns. Alguns dedicados ao público infantil, premiados. Projectos especiais. Reencontros breves com os Sheiks. Teatro. Televisão. Aulas de piano. Canto lírico. Há aqui uma inquietação que não encaixa na ideia confortável de carreira linear. É mais sinuosa. Mais humana.

Arquitectura e música no mesmo corpo

“Arquitecto de Sons” não é apenas título. É uma pista. A arquitectura foi curso. A música tornou-se percurso. Estrutura e emoção a disputar espaço dentro do mesmo criador.

Neste concerto, surge acompanhado por uma banda exclusivamente feminina. Não como ornamento, mas como escolha estética. Novos arranjos, outras texturas, uma energia que empurra canções antigas para um território menos previsível. “Ruas de Lisboa”, “Amélia dos Olhos Doces”, “Alcácer que Vier”. Não soam iguais quando atravessadas por outra geração de intérpretes.

A palavra como casa

Há também a poesia. Manuel Alegre. Miguel Torga. Fernando Pessoa. Joaquim Pessoa. A música aqui nunca foi apenas melodia. Foi sempre casa para palavras que pesam. Que ficam.

O álbum “Viagem”, distinguido em 2024 com o Prémio Pedro Osório, reforça essa dimensão mais introspectiva. Em 2025 chega a colectânea “Arquitecto de Sons, 60 Anos de Canções”, triplo CD com livro. Objecto físico. Quase contra a corrente. Como se fosse preciso tocar na história para acreditar que ela aconteceu mesmo.

Este concerto no Coliseu Club carrega tudo isso. As vitórias no Festival. A Medalha de Honra da SPA. O prémio para música de teatro. Mas, curiosamente, o que pesa mais não são as distinções. É a resistência.

Porque permanecer seis décadas implica atravessar modas, silêncios, indiferenças. Implica aceitar que algumas canções deixam de tocar na rádio mas continuam a tocar nas pessoas. E isso não se mede em números.

Talvez seja isso que estará em palco. Não apenas um alinhamento de êxitos. Mas um corpo de trabalho que se recusa a ser passado fechado. Há ali memória, claro. Mas há também uma espécie de teimosia criativa. Como se cada refrão ainda estivesse a ser testado pela primeira vez.

No dia 20 de Fevereiro, às 21h30, as luzes apagam-se no Coliseu Club. E durante duas horas, talvez mais, o tempo deixa de correr em linha recta. Volta atrás. Avança. Mistura-se. Como as canções que sobreviveram ao próprio contexto e continuam, estranhamente, a fazer sentido.

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