Tiago Matias: Som e a Visão sobre o Futuro da Música nos Açores

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Num arquipélago onde criar implica quase sempre fazer mais com menos, há profissionais que constroem o seu percurso nos bastidores, longe do foco, mas no centro do som. Tiago Matias é um desses nomes. Técnico, produtor e operador de áudio, tem vindo a consolidar um trajeto consistente tanto no espetáculo ao vivo como no universo da rádio e da sonoplastia.

Após concluir formação na área do som, continuou a investir em workshops e especializações, iniciando atividade na produção de espetáculos em funções como FOH, monitores e assistência técnica. Colabora com a RTP Antena 1 Açores desde 2011 e integrou oficialmente a estação como técnico de som em 2019, tendo recebido um primeiro e um terceiro prémios pela sonoplastia de grandes reportagens. Em 2023 suspendeu a atividade como músico profissional, passando a dedicar-se maioritariamente às operações de rádio e ao sound design, mantendo em paralelo serviços de som ao vivo, gravações e recuperação e conversão de suportes áudio, desde cassete e MiniDisc a bobines de fita e VHS.

Nesta conversa, partilha uma leitura direta sobre o estado da música nos Açores, as suas fragilidades, os avanços já conquistados e os caminhos que podem ser trilhados no futuro.

Quando olhas para o teu início, que fragilidades estruturais já existiam na cena açoriana e que continuam por resolver hoje?
Sinto que, apesar de todo o acesso à informação que temos hoje, a estrutura musical nos Açores continua a enfrentar algumas dificuldades. Em qualquer parte do mundo é difícil afirmar-se na área, mas a nossa insularidade, a escassez de meios e sobretudo a falta de contactos e comunidades ligadas à indústria tornam a projeção dos artistas açorianos mais desafiante.

No teu percurso enquanto músico e técnico de som, sentiste que havia rede suficiente entre artistas, salas, técnicos e promotores, ou cada projeto caminhava isolado?
Sempre existiu alguma rede e camaradagem, principalmente no meio técnico. Há colaboração entre artistas e técnicos. As salas de espetáculos parecem relativamente abertas a projetos locais, o que é essencial numa região pequena e com uma indústria cultural de dimensão reduzida.

A formação musical nos Açores acompanha as exigências atuais da indústria?
Existem entidades que apostam na formação, como o Conservatório Regional, escolas de música, instrutores particulares, filarmónicas e cursos técnicos de produção e som. Ainda assim, sinto que há lacunas, sobretudo na vertente mais prática da indústria atual. Falta orientação sobre como transformar uma ideia num produto competitivo, compreender o funcionamento das editoras, estratégias de lançamento e posicionamento. Muitas vezes aprende-se de forma autodidata, em casa, através da internet e da troca de opiniões informais.

Como avalias a qualidade técnica das produções locais atualmente?
Há projetos muito bons e muita vontade. Apesar de algumas limitações tecnológicas em comparação com outros contextos, existe espírito de entreajuda. Nem sempre temos acesso aos equipamentos mais recentes, mas faz-se muito com o que existe. Um bom músico e um bom técnico conseguem resultados fortes mesmo com recursos mais modestos.

O público açoriano valoriza a produção local?
Existe tendência para valorizar mais o que vem de fora, o que é compreensível quando falamos de nomes com reconhecimento nacional ou internacional. No entanto, noto uma valorização crescente dos artistas locais. Cada vez é mais comum ver bandas açorianas integradas em eventos regionais, o que demonstra evolução.

Que papel desempenham as rádios regionais na construção de uma identidade musical açoriana?
Têm um papel importante. Muitas rádios regionais divulgam música local com regularidade. Convidam artistas, promovem lançamentos e dão espaço à cultura açoriana. Esse apoio ajuda a manter a motivação e dá visibilidade a quem cria.

Falta profissionalização na gestão de carreiras e estratégia digital?
Sim. Muitos artistas trabalham com base na intuição e em informação dispersa. Falta uma estrutura que oriente de forma mais concreta questões como marketing, direitos de autor, distribuição digital e relacionamento com editoras. É uma área onde ainda há margem clara para crescimento.

Os Açores podem afirmar uma estética própria?
Acredito que sim. Embora muita produção seja influenciada por tendências globais, há artistas que conseguem imprimir uma identidade muito ligada ao contexto insular. Essa marca pode ser desenvolvida e assumida com maior consciência.

Que infraestruturas fazem falta para consolidar uma cena sustentável?
A sustentabilidade é sempre um desafio. Estúdios, salas e festivais exigem investimento e manutenção. Num mercado pequeno, a rentabilidade é difícil. Isso explica também o crescimento dos home studios, que permitem produzir com custos mais controlados.

A diáspora açoriana pode ser uma ponte para a internacionalização?
Talvez, mas a diáspora atual já não tem a mesma dimensão das grandes vagas migratórias do passado. Com o tempo, a ligação direta às raízes tende a diluir-se. Pode continuar a ser uma ponte, mas talvez com um impacto diferente do que teve noutras décadas.

Quando pensas no futuro, como imaginas a cena musical açoriana?
Vejo-a mais autoral e colaborativa. A tradição continuará presente, embora com menor participação jovem em algumas áreas como filarmónicas e folclore. O futuro pode passar por equilibrar tradição e criação contemporânea, reforçando a colaboração entre artistas. Trabalhar em conjunto, partilhar conhecimento e criar rede será essencial para fortalecer a música nos Açores nos próximos anos.

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