Com quase 30 anos de percurso, FIP0S, nome artístico de Filipe Martins do Vale, construiu uma carreira marcada pela versatilidade, pela persistência e por uma ligação profunda à música feita nos Açores. Entre o metal, o rock alternativo, projetos autorais e iniciativas de dinamização cultural, o músico micaelense atravessou gerações sem perder identidade.
Ao longo desse trajeto fundou bandas, criou plataformas de divulgação, venceu prémios internacionais e assumiu controlo criativo com a criação do seu próprio estúdio. Mais do que uma sucessão de projetos, o seu percurso revela consistência e capacidade de adaptação num território onde fazer rock exige resiliência diária. Nesta conversa, revisita o início, analisa o presente e projeta o que ainda está por cumprir.

Começaste nos anos 90 em São Miguel. Que memória ainda hoje te define enquanto músico dessa fase inicial?
A memória que mais me define dessa fase são os primeiros ensaios na garagem dos meus pais e as noitadas entre amigos, a cantar, a tocar e a conviver no bairro do Calço da Furna, na Fajã de Baixo. Foi aí que tudo começou a ganhar forma: a paixão, a entrega e o sentido de pertença à música.
O que mudou em ti entre os primeiros ensaios na Fajã de Baixo e o músico que és agora?
Mudou muita coisa! O crescimento pessoal, a mentalidade, a experiência e toda uma panóplia de fatores que, ao longo do tempo, nos fazem evoluir e perceber qual a direção a seguir. Hoje há mais consciência, mais maturidade e uma visão mais clara do caminho que quero trilhar.
O metal teve um papel importante na tua formação. O que aprendeste nessa fase que ainda levas para o palco hoje?
Aprendi imenso com o metal, sobretudo no que toca à noção de tempo, à colocação de voz, seja gutural ou limpa, e à aplicabilidade da voz no contexto da afinação, além da integração e das ideias criativas na parte instrumental. Mas, acima de tudo, levo comigo a irreverência, a coragem de ser diferente e a garra em palco. Essa atitude continua a fazer parte de quem sou enquanto artista.
4. Em algum momento pensaste em desistir? O que te fez continuar?
Por incrível que pareça, e apesar de todas as adversidades que viver numa ilha implica, nunca pensei em desistir. Como se desiste de algo que faz parte da tua essência? De algo que te dá vida, força e que te arranca um sorriso, seja num ensaio ou em palco? É essa ligação profunda à música que me faz continuar a lutar todos os dias, por mim, pela minha música e por tudo o que ela representa.
Fazer rock nos Açores implica sempre lidar com a insularidade. Isso foi obstáculo, motor ou ambos?
O rock não é apenas música, é um modo de vida! É uma forma de pensar diferente. É a minha essência, a irreverência, a vontade constante de querer mais e de dar o melhor de mim ao mundo. Viver numa região ultraperiférica implica aceitar a insularidade como parte da realidade. É um desafio, sem dúvida, e torna o percurso mais difícil, mas não impossível. Escolhi viver neste paraíso e aceito as minhas escolhas sem arrependimentos. Luto no meio em que estou inserido, pelo artista que sou, pela minha música, pelo meu trabalho desenvolvido ao longo destes 29 anos e por todos os que caminham comigo. Ser ilhéu é isso mesmo: é obstáculo, mas também é motor de crescimento.
Criaste o Açores Underground numa altura em que a cena precisava de visibilidade. Sentias que faltava estrutura ou reconhecimento?
Em 2009 ainda se vivia uma fase muito interessante do rock e do metal, apesar de já terem existido tempos ainda mais fortes. Na altura, senti vontade de criar um projeto que continuasse a apoiar o incrível movimento de fãs, músicos e bandas do género. Em parceria com amigos com o mesmo gosto pelo audiovisual, quis dar o meu contributo, não só como músico, mas também na vertente visual e de promoção. O objetivo era motivar, apoiar e incentivar novos talentos, sem esquecer as bandas já existentes. Não há nada melhor do que sermos apoiados e acarinhados pelos nossos.
Olhando para a nova geração de músicos açorianos, o que mudou para melhor? E o que continua igual?
A nova geração é bastante diferente da que existia na minha altura e isso é natural, porque o tempo traz mudança. Nada é estático. Hoje, os jovens músicos têm acesso imediato à informação e às ferramentas de produção, algo que antigamente não existia. Produzir com qualidade era caro e muito mais difícil. Atualmente, a tecnologia facilita tanto a aprendizagem como a criação. Isso abre novas possibilidades e ambições. Creio que quase nada continua igual. A evolução é inevitável e cada geração tem a sua identidade própria.
Consideras que o teu percurso ajudou a abrir caminho para outros projetos locais?
Sinceramente, nunca tinha refletido sobre isso. Não sei se o meu percurso abriu caminho para outros projetos, mas acredito que ver alguém em palco ou sentir uma conexão com um artista ao vivo pode inspirar outras pessoas a seguir o mesmo caminho. Essa identificação pode despertar o desejo de criar, de subir a palco e de dar o melhor de si. No entanto, isso exige muita dedicação, trabalho e inúmeras horas de prática e de procura de conhecimento. Se, de alguma forma, contribuí para inspirar alguém, então já valeu a pena.
O prémio internacional com os Duques teve impacto real na tua carreira ou foi sobretudo simbólico?
Penso que teve um pouco dos dois. Por um lado, trouxe-nos um reconhecimento muito relevante ao vencermos o prémio de Best Rock Performance nos International Portuguese Music Awards, o que nos deu visibilidade e validação internacional. Por outro, acredito que poderíamos ter ido ainda mais longe se todos os elementos da banda tivessem mantido o mesmo foco, compromisso e prioridades bem definidas. Isso acabou por não acontecer.
O que significa ganhar reconhecimento fora do território onde construíste quase toda a tua história?
É um sentimento profundo de gratidão e valorização. Ser reconhecido fora de portas é sempre motivo de orgulho, porque significa que o nosso trabalho ultrapassou fronteiras e tocou outras realidades.
A validação externa muda a forma como olhas para o teu próprio trabalho?
É sempre gratificante sermos reconhecidos, tanto fora como dentro de portas. No entanto, a forma como olho para o meu trabalho mantém-se a mesma: com espírito crítico, seriedade e consciência do caminho que quero seguir.
Criar o teu próprio estúdio foi uma decisão artística ou estratégica?
Penso que foi um pouco dos dois, mas, acima de tudo, a concretização de um sonho.
Ter controlo sobre produção e gravação altera a forma como compões?
A criatividade é algo profundamente pessoal e não segue fórmulas mágicas. Cada pessoa encontra o seu próprio processo.
Hoje sentes-te mais músico, produtor ou empreendedor?
Considero-me, acima de tudo, artista e músico.
Como nasce uma canção tua? Começa na letra, na melodia ou na energia?
Na inspiração não há regras fixas.
Ainda escreves com a mesma urgência de quando tinhas vinte anos?
Nunca escrevi com urgência, mas sim com sentimento e intenção.
O que te inspira mais neste momento: memória, realidade ou ambição?
As três.
Depois de quase três décadas, o que ainda te desafia?
Desafia-me crescer continuamente.
Que tipo de legado gostarias de deixar na música açoriana?
Gostaria que a minha música deixasse marca emocional.
Se pudesses falar com o Filipe de 1997, que conselho lhe darias?
Dir-lhe-ia para continuar a acreditar em si próprio.
O que ainda falta fazer?
Sinto que falta fazer quase tudo.

