Entrevista: Luís Varatojo: “Não me interessa música que é só entretenimento”

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Ao longo de várias décadas de atividade, Luís Varatojo construiu um percurso singular na música portuguesa. Do punk dos Peste & Sida às experiências eletrónicas da Linha da Frente, passando pela reinvenção do fado com A Naifa e pelos cruzamentos sonoros de projetos como Fandango, o músico e produtor tem explorado diferentes linguagens sem perder um olhar crítico sobre o mundo que o rodeia.

Com o projeto Luta Livre, iniciado em 2021, Varatojo assume um espaço ainda mais pessoal de criação. As canções cruzam referências da música popular portuguesa com jazz, rock e eletrónica, sempre acompanhadas por um discurso poético atento à realidade social e política do país. O novo álbum Contrafação continua esse caminho, reunindo dez canções que misturam ironia, crítica e observação do quotidiano português.

Nesta entrevista ao Musicatotal, o músico revisita o seu percurso artístico, fala sobre a importância da palavra nas canções, explica a mistura de estilos que define a Luta Livre e reflete sobre o lugar da música com pensamento crítico num tempo dominado pela velocidade e pelos algoritmos.

Foto: ©Fernando Martins

Quando olha para o seu percurso desde os primeiros tempos nos Peste & Sida até à Luta Livre, que momentos sente que mudaram mesmo a forma como pensa a música?

Acho que todos os projetos foram determinantes para a forma como olho para a música. Hoje sou um pouco de todos eles. O rock dos Peste, o ska dos Despe, a eletrónica da Linha da Frente e do Fandango, o fado d’A Naifa. Penso que toda esta diversidade de experiências me deu ferramentas que são essenciais para fazer a música que faço hoje.

A sua carreira atravessa projetos muito diferentes. O que aprendeu em cada fase que ainda hoje reconhece nas canções da Luta Livre?

A compor as melodias, a pensar os arranjos, a estruturar as canções, a ser mais assertivo quando escrevo uma letra, a usar todo o tipo de instrumentos, desde a simples guitarra acústica aos mais complexos módulos digitais, aprendi, sobretudo, a simplificar, que é o mais difícil de conseguir.

Nos anos iniciais do punk em Portugal havia uma urgência muito concreta. Ainda sente essa mesma urgência hoje ou ela transformou-se noutra coisa?

Acho que a urgência tem a ver com a idade. Neste momento faço as coisas com mais calma. Já percebi que não vale a pena correr.

Em que momento percebeu que a palavra podia ter tanto peso dentro das suas canções quanto a própria música?

Desde o início. As canções dos Peste eram bastante acutilantes. As dos Despe também. A forma foi mudando, mas o conteúdo esteve sempre lá. Gosto de canções com mensagem e que desafiem o ouvinte a fazer a sua leitura, que o ponham a pensar. Não me interessa de todo música que é só entretenimento.

Contrafação mistura reflexão social, humor e crítica. Em que momento nasceu a ideia de transformar estas canções quase num manifesto cantado?

As canções são retratos que vou fazendo daquilo que me rodeia. Há sempre um ponto de vista interessante, um ângulo de abordagem que pode revelar o lado poético de determinado assunto. Quando o encontro, escrevo. Não faço uma lista de temas a abordar, nem tenho um plano ou um conceito para que um conjunto de canções se transforme num manifesto ou noutra coisa qualquer. Vou trabalhando as canções e, quando percebo que tenho material suficiente para fazer um disco, avanço para a gravação. Escolho sempre as que gosto mais, as que acho mais conseguidas.

Algumas faixas parecem mais faladas do que cantadas. Isso surgiu de forma natural ou foi uma decisão consciente durante a criação do disco?

Neste momento sinto-me confortável com este tipo de vocalização. Gosto de ouvir a minha voz neste registo e acho que casa bem com o ambiente instrumental e com o tom dos textos. É um processo natural.

A Luta Livre cruza fado, corridinho, morna, reggae e até rap. Como nasce esta mistura tão pouco previsível?

A música que eu faço é a música que eu oiço. Como sou um ouvinte muito eclético, é natural que todas essas referências apareçam quando componho. Não acho que uma estética coerente passe forçosamente por adotar um só género musical. A coerência estética não se baseia em limites formais, mas sim em opções a nível do conteúdo. Além disso, toda a música é mistura de outras músicas. Nenhuma música é pura.

No palco, que diferença sente entre ouvir estas canções sozinho em estúdio e dizê-las frente a um público?

Estou na expectativa, porque ainda não tive oportunidade de as apresentar ao vivo. Espero que o público sintonize e que elas ganhem uma segunda vida.

A música portuguesa mudou muito nas últimas décadas. O que o entusiasma na geração atual de músicos?

A diversidade e a desfaçatez. É preciso arriscar, experimentar, para que a música seja entusiasmante, desafiante, e esta geração não pede licença, não tem pruridos.

Ainda existe espaço para canções com pensamento crítico num panorama musical cada vez mais rápido e dominado por algoritmos?

Essas canções são cada vez mais necessárias. São um ativo essencial para combater a ditadura do algoritmo e a desumanização. Se não pararmos um pouco para pensar, se não tivermos pensamento crítico, deixamos de ser humanos e passamos a ser animais irracionais que apenas respondem a impulsos básicos.

O que continua a surpreendê-lo quando sobe ao palco depois de tantos anos de carreira?

O público surpreende sempre, porque nunca sabemos qual vai ser a sua reação, sobretudo quando apresentamos repertório novo.

Se tivesse de explicar a Luta Livre a alguém que nunca ouviu o projeto, por onde começaria?

A Luta Livre é um espaço de liberdade onde tudo pode acontecer. Gosto de experimentar e estou sempre a modificar os métodos que uso para criar música, por isso os resultados são bastante diversificados. Os três discos que fiz até ao momento têm sonoridades muito distintas, o que contribui para a riqueza do projeto. Portanto, musicalmente é bastante eclético e, diria, surpreendente para quem começa a descobri-lo canção a canção, disco a disco. Nas letras falo do dia a dia, de questões sociais e políticas, de comportamentos. Há crítica, humor e muitas metáforas que permitem diversas leituras. É música com consciência e que apela à reflexão. Mas sempre divertida e dançável.

Hoje, depois de tantos discos e projetos diferentes, o que ainda o faz querer escrever uma nova canção?

Acho que o facto de estar sempre a experimentar novas abordagens, novos instrumentos e diferentes formas de escrever me salva do aborrecimento da repetição. Continuo tão entusiasmado como no início. Sempre que surge uma ideia para uma canção e começo a desbravar terreno, deixo-me levar. Parece que o tempo não existe. E, com o mundo a correr a esta velocidade, assuntos não me faltam.

Quando imagina os próximos anos da Luta Livre, vê continuidade do caminho atual ou sente vontade de virar novamente noutra direção inesperada?

Nunca fiz planos de longo prazo. Vou trabalhando diariamente, escrevendo, compondo, e as coisas vão acontecendo naturalmente. Só edito discos se estiver satisfeito com o resultado do trabalho. Mas, como disse atrás, a Luta Livre é um espaço de experimentação onde cabe tudo, onde posso fazer o que quiser.

No meio de tudo isto, que pergunta ainda ninguém lhe fez e que talvez gostasse de responder?

Esta.

Crítica ao disco

Um belo disco que se move com naturalidade entre a tradição e uma sensibilidade pop discreta. As canções avançam com leveza, sem cair no registo demasiado “corridinho”, deixando espaço para que as melodias respirem e para que cada palavra encontre o seu lugar.

No centro está um “fado no pensamento” de grande elegância, cantado com respeito pela vida e pelas suas pequenas contradições. Existe aqui uma contenção que dá força às canções, evitando excessos e privilegiando a emoção direta. Letras fortes e bem escritas, menssagem atual e mundial um disco com sapiência.

O resultado é um trabalho equilibrado, com canções que ficam na memória pela simplicidade e pela honestidade. Um disco que confirma maturidade artística e que se afirma como um dos momentos mais conseguidos da discografia do artista.

A data de lançamento do álbum Contrafação, do projeto Luta Livre de Luís Varatojo, foi:

17 de outubro de 2025.

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