Nos Açores, onde o tempo parece correr a um ritmo diferente e a natureza se impõe como presença constante, surgem projetos musicais que transformam essa paisagem em som. O duo Mantra Nostrum nasce precisamente desse encontro entre sensibilidade artística, introspeção e vontade de criar algo que vá além das fronteiras das ilhas.
Nesta conversa, os músicos falam sobre a origem do projeto, a relação com o território açoriano e o modo como a poesia, a experimentação e a vivência pessoal entram nas suas canções. Pelo meio surgem histórias de estúdio inesperadas, reflexões sobre o isolamento criativo e a visão que têm para o futuro da banda.

Como nasceu a ideia de formar a banda e porquê o nome Mantra Nostrum?
Nasceu de um feliz encontro. Uma admiração mútua pelos projetos e percursos musicais de cada um de nós.
Primeiro surgiu a ideia de “Mantra”, por refletir a ideia de repetição da nossa sonoridade, da nossa mensagem interior, do que nos urge, do que nos aflige e do que nos liberta. Para podermos diferenciar e personalizar o projeto, optámos por incluir a ideia de nosso: “o nosso mantra”.
Qual é a primeira imagem ou sensação que vos vem à cabeça quando pensam nos Açores como espaço criativo?
A imensidão da natureza e o seu ritmo de tempo muito próprio. Certamente convergem num despertar de sentidos único para os sons que nos envolvem e inspiram.
As vossas músicas têm uma forte componente poética. Como é que as palavras entram no processo? Primeiro letra ou primeiro som?
Acontece de uma forma muito natural. Normalmente a inspiração surge primeiro na guitarra e as palavras acompanham o som que se faz sentir. Através de um rodopio de ideias constrói-se uma mensagem, uma intenção, um corpo que se reveste por camadas.
Que sons ou ruídos do quotidiano açoriano já se infiltraram nas vossas composições sem darem conta?
Talvez a voz da terra, o movimento do mar…
Há uma tensão entre tradição e experimentação na vossa música. Como equilibram essas duas forças?
Há uma aceitação clara de que, para nós, a música é intemporal e não tem necessariamente de se limitar a categorias. Sem dúvida que ambos trazemos uma bagagem musical vasta e gostamos de expressá-la livremente.
Qual foi o momento mais inesperado ou marcante durante a gravação do vosso último trabalho?
Para mim, cantar grávida foi uma experiência marcante (Maria Carolina).
Se tivessem de descrever a vossa sonoridade a alguém que nunca ouviu, que três palavras escolheriam?
O Nosso Mantra.
Que artistas ou movimentos culturais sentem que vos influenciam, direta ou indiretamente?
Todos aqueles que nos tocam de alguma forma e que nos fazem acreditar num mundo melhor. Não importa de que época, de que movimento ou de que latitude.
Como é que o isolamento geográfico dos Açores impacta a vossa forma de criar e de chegar ao público?
Por um lado inspira; por outro inquieta e desafia. Há aqui um tempo e um espaço muito próprios que convidam à criação. Sentimos que, por vezes, estamos tão isolados, até nas nossas próprias ilhas. É uma pena não existir ainda um circuito regional onde possamos dar a conhecer o nosso trabalho uns aos outros. Certamente isto poderia contribuir para enriquecer os Açores como um todo.
Há alguma história curiosa de bastidores que nunca contaram e que merece ser partilhada?
Há temas que vão para estúdio completamente pensados em termos de composição, de arranjos, etc., e outros em que há espaço para a experimentação. Por exemplo, acabámos por utilizar sacos plásticos para gravar uma parte da percussão do tema “Mundos”.
O que procuram resolver ou expressar com este projeto? É mais pessoal, mais coletivo, ou ambos?
Em parte são vivências nossas, retratos sociais do mundo que nos rodeia, expressões do imaginário, onde procuramos sempre transmitir uma mensagem de amor, de paz, de união e de consciência.
Que horizonte imaginam para a banda nos próximos anos? Mais discos, colaborações ou algo completamente diferente?
Para já estamos concentrados em terminar o nosso primeiro disco, embora o segundo já esteja conceptualizado e faça parte de um todo que pretendemos dar a conhecer com o tempo. Posteriormente queremos continuar a fazer o que mais gostamos: criar e partilhar. Temos alguns concertos já agendados para este ano e vamos participar numa coletânea de música feita nos Açores.
Independentemente do que possamos visualizar em termos de futuro, esperamos acima de tudo por um mundo que ofereça espaço à cultura, que perceba nela uma evolução dos tempos, que nos defenda, que nos permita crescer e tornarmo-nos pessoas melhores, em nós e entre nós.

