Festival Jazz Manouche de Almada regressa em maio com espírito gypsy e cartaz internacional

Share

Almada volta a abrir espaço a um género que vive de detalhe, improviso e memória. Entre 8 e 10 de maio, o Cine Incrível recebe a quinta edição de um festival que tem vindo a crescer de forma consistente, não em escala mediática, mas em identidade.

 

Aqui, o jazz manouche não surge como nicho, mas como linguagem viva, partilhada entre músicos e público.

O ponto de partida continua a ser o mesmo, a herança de Django Reinhardt, mas o que se constrói à volta já não é apenas homenagem. Há uma tentativa clara de atualizar o som, de cruzar gerações e geografias, e sobretudo de criar um espaço onde o estilo se mantém relevante fora dos circuitos óbvios.

Um arranque marcado pela ligação entre Galiza e França

A primeira noite junta dois músicos que já se encontraram antes, mas que agora chegam com um projeto mais sólido. David Regueiro e Thomas Kretzschmar trazem uma relação construída em palco e afinada em estúdio, com composições recentes a servir de base.

Em quarteto, com Gonçalo Mendonça e Juyma Estévez, o concerto aponta para um equilíbrio entre técnica e emoção. Não se trata apenas de virtuosismo. Existe ali uma intenção narrativa, quase cinematográfica, que transforma o repertório numa viagem contínua dentro do universo manouche.

O peso da história entra em palco no segundo dia

Quase três quartos de século depois, o nome Hot Club de France volta a ganhar forma. O Nouveau Quintette não tenta recriar o passado de forma rígida, mas também não o ignora. Há respeito pelo legado de Django Reinhardt e Stéphane Grappelli, mas há também espaço para interpretação.

O repertório atravessa várias décadas, dos anos 1910 aos anos 40, e inclui peças menos conhecidas, o que revela uma preocupação em ir além do óbvio. É um concerto que deve interessar tanto a quem conhece profundamente o género como a quem entra agora neste universo.

Dança e comunidade no coração do último dia

O domingo muda o ritmo, mas não perde identidade. A aula de dança conduzida pela Blues & Swing Lisboa traz o corpo para o centro da experiência. Não é apenas um complemento. É uma extensão natural da música.

A ligação entre som e movimento torna-se evidente aqui. O ambiente tende a ser mais descontraído, mais aberto, quase familiar. E isso faz diferença num festival que também se constrói pela forma como envolve quem aparece.

Energia final com sotaque lisboeta

O fecho fica a cargo dos Stomping at Six, uma banda que já conhece bem o impacto do swing em palco. O repertório mistura jazz e blues das primeiras décadas do século XX com adaptações inesperadas, incluindo fado, o que cria um contraste curioso.

Ao vivo, o grupo aposta na intensidade e na proximidade com o público. Alternam momentos mais acelerados com passagens mais densas, mantendo sempre uma energia constante. É o tipo de concerto que não fecha o festival de forma cerimonial, mas sim em movimento.

No fundo, este festival continua a crescer como uma espécie de ponto de encontro discreto. Não precisa de fazer muito barulho para afirmar presença. Basta-lhe manter esta consistência e deixar que a música faça o resto.

 

LER MAIS

Notícias Locais