Antes de entrarem em palco para um dos concertos mais invulgares da sua longa história, os UHF abrem espaço para olhar para trás, perceber o presente e deixar pistas sobre o que ainda pode vir aí. Entre memórias de estrada, mudanças na música portuguesa e a relação com o público, a conversa percorre várias décadas sem perder o foco no essencial: a inquietação que continua a mover a banda.

No final dos anos 70, quando surgiram as primeiras canções e o EP Jorge Morreu, tinham consciência de que estavam a abrir caminho para uma nova linguagem no rock português?
Não, nunca de forma consciente. O nosso horizonte era curto, não havia histórico, as poucas bandas que gravavam discos singles andavam pelos bailes das escolas e das sociedades recreativas a tocar os sucessos da rádio, a que juntavam uma ou duas da sua lavra. Por tudo isto, o nosso horizonte não chegava ao fim da rua.
O radialista António Sérgio chamou às primeiras canções dos UHF “underground português”. Como receberam essa leitura na altura e o que significava para a banda?
Para mim foi entre o interrogativo e o assustador, nós éramos tão pequeninos. O António, nos seus programas de referência e abertura de horizontes musicais, era para nós um guru, mostrava-nos os rumos da música anglo-americana fora dos standards radiofónicos. Se ele falava de nós e nos divulgava, era mais honra do que vaidade.
Almada e a margem sul aparecem muitas vezes como cenário emocional da vossa música. De que forma esse território moldou a identidade dos UHF?
Almada cresceu como ‘sombra’ de Lisboa, cidade dormitório, onde os cidadãos vinham dormir. Depois, com a industrialização do final dos anos 60 do século passado, de que a Lisnave foi o maior símbolo, as pessoas começaram a trabalhar e a viver na vila que passou a cidade. Nas garagens havia gente a ‘dar uns toques’. É com este clima que chega o 25 de Abril e a liberdade permite escrever sobre a realidade circundante sem rodriguinhos. Almada e a sua realidade. “Jorge Morreu” fala de um rapaz que a droga dura matou.
Ao longo de décadas de carreira, que momentos do passado continuam a definir quem são hoje enquanto banda?
Exigência, ensaios duros, debates intensos e a felicidade de haver público em qualquer terra deste país. Não há acaso ou sorte, há convicção e trabalho.
O concerto UNDERGROUND-UHF promete 22 canções raramente ou nunca tocadas ao vivo. Como foi o processo de redescobrir esse repertório escondido?
Nasceu de uma votação interna, uma escolha livre que depois conduziu ao agrupar de uma listagem. Mas até poderão ser mais de 22 em palco, no dia 21.
Depois de tantos anos de estrada, ainda existe espaço para surpresa dentro da própria banda quando revisitam músicas antigas?
Há disso tudo e até discussões acesas, nos UHF não há cristalização nem espelho de um figurino imutável. Nos UHF há transformação e muita exigência.
O que distingue este concerto especial de um espetáculo normal dos UHF?
Sobretudo a ausência dos sucessos que o público ergueu ao longo da vida da banda. Neste concerto viveremos das surpresas, o repertório está guardado, será uma descoberta mútua.
O público português acompanhou várias fases da banda. Como sentem hoje essa relação com diferentes gerações que continuam a descobrir os UHF?
Pessoalmente, espanta-me que os adolescentes nos sigam e vão aos concertos. Nos autógrafos tenho gente muito jovem a falar comigo do que se passou e isso pacifica as minhas interrogações. Sou de uma geração que rejeitava, eu rejeitava, a música dos meus pais, o choradinho assexuado português, a rima da faca e do alguidar. Somos o primeiro movimento de renovação da música portuguesa que entra pelas portas da liberdade criativa pós 25 de Abril, a realidade que está presente nos poemas, o ritmo que provoca. A comunicação cruza pontes.
Quando tocam nos Açores costuma ouvir-se que “fica no coração”. Que memórias guardam dessas passagens pelas ilhas e do público açoriano?
Os UHF foram o primeiro grupo português a ir ao arquipélago, aliás como à Madeira. Em julho de 1982 tocámos em São Miguel e na Terceira. O PA que foi connosco não voltou, alguém o comprou para produzir concertos. Já toquei nas nove ilhas e houve momentos fantásticos. O porquê não sei, mas posso especular: não há filtros, há uma essência atlântica, há encantamento.
Um dia, na Graciosa, no final do concerto, o presidente da câmara veio cumprimentar-nos e diz-me: “Senhor António, não fique triste por não haver mais gente, vieram todos, menos os que estão de cama.” E é isto que me enche o coração.
A longevidade dos UHF atravessa mudanças profundas na indústria musical. O que mudou mais no modo de viver e divulgar música desde o início até hoje?
O que mudou mais foi o papel da rádio, que passou a ser formatada, tirando a divulgação global da música que se produz e levava o público a comprar os discos do seu interesse. Além da imprensa especializada, que chegou a ter três semanários e suplementos em todos os diários. Tudo isso se esfumou. Hoje são as redes e o digital, e tudo tem de ser muito pela rama, muito curto, muito rápido. Quando mais de 40% dos portugueses não consegue ler e interpretar um texto com mais de quatro linhas, estamos a empurrar o público para o menos.
Olhando para o presente, o que continua a motivar a banda a criar novos desafios e novos concertos especiais?
Esta vontade de estarmos juntos, nos ensaios, no estúdio, nos concertos, descobrir algo novo. Porque somos nós e o nosso público que o pede e merece.
E olhando para o futuro, que papel imaginam que os UHF ainda podem desempenhar na história do rock português?
Não sei, não sou dado a especulações tão densas. Legenda provável: uns tipos que se fizeram por si, duros como rock, diz a canção, e que não sabem desistir. Talvez se lembrem mais tarde do nosso exemplo e de entrevistas como esta, em que não tenho filtros. Nem idade para isso.

