Num momento em que a palavra “fronteira” volta a ganhar peso político e simbólico, há projetos que escolhem o caminho inverso.

Não o confronto, mas o encontro. Não a separação, mas a escuta. É nesse território que nasce “Do Cabo do Mundo – um tributo imigrante a Fausto”, uma leitura contemporânea da obra de Fausto Bordalo Dias construída a partir da experiência de artistas que vivem entre geografias, línguas e histórias.
A estreia ao vivo está marcada para 11 de abril, no Teatro-Cine de Pombal, naquele que será o primeiro contacto com o público de um projeto que não se limita a revisitar canções. Há aqui uma tentativa clara de as reativar, de lhes devolver urgência num presente onde identidade e pertença voltam a ser discutidas com intensidade.
Um cancioneiro em movimento
A obra de Fausto sempre viveu da travessia. Viagens, encontros, tensões históricas. Tudo isso transformado em música com uma assinatura muito própria. Este projeto parte desse mesmo ponto, mas desloca-o. Em vez de olhar para trás, empurra o repertório para o agora.
Canções como “Por Este Rio Acima”, “Lembra-me um Sonho Lindo” ou “Rosalinda” surgem aqui como matéria viva. Não são peças de museu. São reescritas a partir de novas vozes, novos sotaques, novas experiências. E isso sente-se não só na interpretação, mas também na forma como os arranjos abrem espaço para outras tradições.
O Atlântico como linguagem
Mais do que cenário, o Atlântico funciona aqui como eixo conceptual. Um espaço de circulação, de memória, mas também de reinvenção. Portugal, África e Brasil encontram-se não como ideia abstrata, mas como prática musical concreta.
Esse cruzamento traduz-se numa linguagem marcada pelo ritmo. A percussão ganha protagonismo, criando um terreno onde convivem referências ao samba, ao maracatu, ao funaná ou à morna. Não há tentativa de uniformizar. Pelo contrário. A força está precisamente na fricção entre essas sonoridades.
Vozes que contam outras histórias
O projeto junta um conjunto de intérpretes que carregam percursos distintos, mas complementares. Luca Argel traz uma abordagem que mistura criação artística com reflexão histórica. Nani Medeiros aproxima o universo da música popular brasileira do fado com naturalidade.
Nancy Vieira mantém uma ligação profunda à morna e à tradição cabo-verdiana, enquanto Selma Uamusse introduz uma intensidade muito própria, difícil de encaixar em categorias simples.
O resultado não é homogéneo. Nem pretende ser. Há diferenças claras entre as abordagens, e é precisamente isso que dá densidade ao projeto.
Direção, percurso e o que vem a seguir
A direção musical está nas mãos de Carlos César Motta, um nome com mais de três décadas de percurso e uma experiência acumulada ao lado de artistas como Maria Bethânia, Elza Soares, Simone e Zélia Duncan. A colaboração com Fred Martins reforça essa ponte entre tradição e contemporaneidade.
Depois da estreia em palco, o projeto avança para edição discográfica. O primeiro single chega a 24 de abril e o álbum completo está previsto para maio, com distribuição da Symphonic Distribution e coprodução da Casa Varela e do próprio Teatro-Cine de Pombal.
O que fica no ar não é apenas a expectativa de um concerto ou de um disco. É a sensação de que este repertório continua em movimento, a atravessar tempos e corpos diferentes, como se ainda estivesse a ser escrito.


