Quando começaram a tocar juntos em setembro de 2024, sentiram logo que isto podia ser mais do que encontros entre amigos?
Rodrigo: É, de facto, uma bela desculpa para a paródia aos domingos. Mas sim, claro, o propósito de uma banda é escrever música, gravar e tocar ao vivo. A escrita esteve lá desde o início, o resto foi deixar acontecer.
Rute: Começou e continuou sempre como um encontro de amigos, cujo propósito era e é fazer música. O mais resulta disso mesmo, isto é, da amizade e do desejo de criar qualquer coisa bonita e com a qual nos identificamos.
Marta: Acho que, no fundo, sentimos que era um encontro entre amigos que descobriram outra forma de comunicação e que não se entenderam nada mal com ela. Esta forma de passar os domingos à noite tornou-se uma espécie de terapia necessária.
Que referências musicais estavam mais presentes nos primeiros ensaios e o que mudou desde então?
Rodrigo: Começámos com rascunhos de canções e partimos daí para escrever outras canções. Nunca senti influência externa, nunca falámos de fazer isto ou aquilo. Temos uma ideia, perseguimos a ideia e passamos à próxima. Na verdade, somos a nossa própria referência.
Rute: O ponto de partida foram canções já idealizadas e trabalhadas pelo Rodrigo. Cada um foi somando aquilo que de melhor tinha. Certamente que as referências e influências existem, mas nunca houve qualquer pretensão de explorar ou manifestar isso.
Marta: As referências musicais, desde o primeiro ensaio, foram músicas do Rodrigo que queriam vir cá para fora. E, apesar de não saber (ainda) o que vai na cabeça dele, acho que essas referências vêm de sítios comuns, apanhados de conversas, pensamentos intrusivos e, talvez, até sonhos.
Houve algum momento específico em que perceberam que estava na hora de gravar os três temas que deram origem ao EP?
Rodrigo: Houve, sim. Quando a Rute nos mostrou a foto do Rocky, que é a capa do EP.
Rute: Esse sempre foi um dos objetivos. Deixámos acontecer quando sentimos que devia.
Marta: Primeiro, acho que pensámos em gravar algumas músicas só para ver como estávamos a soar para o concerto, não tínhamos o intuito de gravar logo uma demo. Mas o Rocky veio mudar isso.
O que aprenderam sobre vocês próprios durante o processo de gravação e edição do disco?
Rodrigo: É sempre diferente ouvirmo-nos de fora. Infelizmente, nunca poderemos assistir a um concerto nosso, e só a gravação o permite. Depois há todo aquele lado técnico, a nível de estúdio, de descobrir a estética da produção e da logística envolvida.
Rute: É uma pergunta quase existencial, mas acredito que o que aprendemos, e também aquilo que ainda há por aprender, se reflete naquilo que fizemos.
Marta: Aprendi esta regra de que as coisas soam melhor quando não estão a ser gravadas. O nervosismo que a gravação traz tira alguma espontaneidade. Por outro lado, acho que trouxe também confiança entre os três, por vermos como lidamos com foco mesmo nestes momentos.
Como definem hoje a identidade sonora de Manual de Intervenção depois deste primeiro lançamento?
Rodrigo: Sinceramente, não consigo responder. Poderia dizer isto e aquilo, mas, na verdade, foi tudo muito espontâneo.
Rute: A identidade sonora de Manual de Intervenção define-se como sendo a identidade sonora de Manual de Intervenção. É mais interessante confiar esse exercício a quem ouve. Honestamente, pouco nos importa catalogar a nossa música.
Marta: Não sei, algo ainda em processo de descoberta, sem uma definição concreta.
Olhando para o EP já editado, há algo que fariam de forma diferente se voltassem atrás?
Rodrigo: Estão-me sempre a chatear que a voz deveria estar mais alta. Mas ainda não percebi se sou eu ou se anda tudo habituado a produções com a voz excessivamente à frente, como tem sido hábito nas últimas duas décadas.
Rute: Provavelmente. Mas, na medida em que não podemos voltar atrás, estamos felizes com aquilo que está feito e, neste momento, o que nos importa são os próximos passos.
Marta: Acho que não, talvez o som pudesse estar mais alto.
De que forma a estreia ao vivo no RCA Club influenciou a vossa perceção sobre as músicas e sobre o caminho da banda?
Rodrigo: Foi tudo muito rápido, 20 minutos em palco passam num instante. Acho que é continuarmos o que temos vindo a fazer, juntarmo-nos para fazer música. Logo se vê.
Rute: O concerto funcionou como álcool numa fogueira. Continuamos a arder, queremos fazer mais e melhor.
Marta: No fundo, aquela sensação de confiança e cumplicidade que já tínhamos sentido entre os três durante as gravações foi ampliada com o concerto, o que só alimentou esta viagem que queremos continuar a percorrer com a música.
Sentem que o público compreendeu a mensagem e a energia que quiseram transmitir nestas três faixas?
Rodrigo: Pelo que a MúsicaTotal escreveu sobre o EP, diria que sim.
Rute: Sim. Se bem que, conforme já dissemos, não há propriamente uma pretensão de transmitir o que quer que seja. É espontâneo, mas, se isso ecoar em alguém, que bom.
Marta: Acho que sim, se bem que não existe propriamente uma fórmula para as compreender. Cabe a cada um essa liberdade de interpretação e de sentir.
Estão já a trabalhar em novos temas ou a pensar num formato mais longo, como um álbum?
Rodrigo: Estamos sempre a trabalhar, o resto descobrimos pelo caminho. Se single, EP ou álbum, logo se vê.
Rute: Sim. Como disse, continuamos a arder.
Marta: Estamos a trabalhar em novos temas, formatos ainda não sabemos.
Daqui a três anos, onde gostariam que Manual de Intervenção estivesse, tanto em termos criativos como de palco?
Rodrigo: Acima de tudo, que daqui a três anos ainda tenhamos a possibilidade de nos juntarmos para fazer música. Em termos criativos, só dependemos de nós, não duvido que continuemos a crescer. Já de palco, nunca se sabe.
Rute: Daqui a três anos, gostaríamos que Manual de Intervenção estivesse, ponto. Isto é, continuar a fazer aquilo que gostamos e que isso possa impulsionar novas oportunidades e aprendizagens. O resto logo se vê.
Marta: Por pouco ambicioso que possa parecer, acho que, por enquanto, só consigo ainda projetar para o ensaio do próximo domingo, do qual espero mais um momento criativo e de aprendizagem, com risos à mistura.