Passaram mais de duas décadas desde o arranque do Musicatotal, num tempo em que a internet musical em Portugal ainda dava os primeiros passos.

Hoje, o site apresenta um novo visual, uma linha editorial mais definida e números que confirmam crescimento real. Mas por trás dessa evolução existe também uma tensão clara entre ambição e sustentabilidade.
Nesta conversa, olhamos para o percurso do projeto, o momento atual e os desafios que se desenham no horizonte.
Vinte e três anos depois, o que mudou realmente no Musicatotal?
Mudou quase tudo, menos a base. O site cresceu, ganhou outro ritmo, outra apresentação e uma forma mais clara de comunicar. O visual foi renovado, a filosofia também. Hoje existe uma preocupação maior com consistência editorial e identidade. E isso sente-se. O crescimento de cerca de 60% nas visitas não apareceu por acaso.
Esse crescimento veio de onde?
Veio de várias frentes. As entrevistas às bandas trouxeram muita gente nova. Criaram proximidade, deram conteúdo exclusivo e mostraram que o site está vivo. Ao mesmo tempo, o volume de notícias que chega à redação duplicou. Isso também diz muito sobre a perceção externa do projeto. Passou a ser visto como um espaço relevante.
Esse aumento de visibilidade trouxe estabilidade?
Nem por isso. Trouxe pressão. Mais conteúdo, mais responsabilidade, mais exigência. Mas a base continua frágil. A única forma de sobrevivência com contribuições está mais difícil. O modelo não acompanha o crescimento.
Estamos perante um problema estrutural?
Sim. As regras que funcionam nos grandes sites simplesmente não resultam em Portugal. O mercado é pequeno, o investimento é limitado e o público ainda não tem o hábito de apoiar projetos independentes de forma consistente. Isso pode colocar em causa a continuidade.
Por que razão optar por não incluir publicidade?
Foi uma escolha consciente. A publicidade é escassa e, quando aparece, raramente compensa o impacto que tem na experiência do leitor. Preferimos manter o site limpo e focado no conteúdo. Mas claro, isso também tem um custo.
Onde entra o futuro do Musicatotal?
Na inovação. Não há outra saída. Vamos continuar a melhorar o conteúdo, a explorar novas ideias, novos formatos, e a construir uma reputação sólida entre os sites nacionais. O objetivo é simples de dizer, difícil de executar: tornar o Musicatotal uma referência que não depende apenas de modelos tradicionais para existir.
Como se olha para este percurso de forma pessoal?
Com orgulho, mas sem romantizar. Foram muitos anos de trabalho, adaptação constante e decisões difíceis. O site cresceu, sim. Mas continua num equilíbrio delicado. E talvez seja isso que o mantém vivo.

