Um projeto que começou por falar com crianças acabou por dizer coisas sérias a toda a gente. Ao longo dos últimos anos, Mão Verde foi ganhando espaço raro dentro da música portuguesa, aquele território onde brincar e pensar não são opostos.

Em abril, esse caminho continua com um novo capítulo: o terceiro disco-livro chega dia 20, com estreia ao vivo marcada para a véspera, na Casa da Música.
O avanço chama-se “Mazeukeru” e funciona como porta de entrada para este novo universo. Um tema que parte de um monstro birrento, mas que rapidamente revela algo mais fundo: a forma como lidamos com frustração, intensidade e emoção. Nada é dito de forma pesada, mas também não é leve no sentido vazio.
Um projeto que não trata crianças como público menor
Desde o início, Mão Verde recusou simplificar ideias só porque o público é mais jovem. Isso sente-se novamente neste novo trabalho. Capicua, Francisca Cortesão, Pedro Geraldes e António Serginho voltam a construir canções que funcionam em vários níveis.
Por um lado, há humor, ritmo, personagens. Por outro, surgem temas que não costumam aparecer neste tipo de formato: desigualdade, democracia, diversidade, convivência. Tudo isto sem discurso moral fechado. Há perguntas, há espaço para interpretação, há margem para conversa.
Essa abordagem acaba por aproximar diferentes gerações. Não é só um disco para crianças. É um objeto cultural que circula entre pais, filhos, escolas e professores.
O formato livro como extensão da música
O disco não existe sozinho. Tal como nas edições anteriores, o formato livro continua a ser parte central da experiência. Aqui, as ilustrações de Bernardo Carvalho não são apenas complemento visual. Funcionam como outra camada narrativa.
As letras ganham contexto, os poemas expandem-se, as imagens ajudam a construir sentido. Existe um cuidado claro em transformar este trabalho num objeto completo, não apenas num conjunto de faixas.
Esse cruzamento entre música e edição reforça a identidade do projeto. Não é apenas ouvir. É folhear, ler, parar, voltar atrás.
Entre estilos, jogos e liberdade criativa
Musicalmente, o novo disco continua a explorar diferentes linguagens. Há uma espécie de jogo constante com estilos, ritmos e formas de cantar. Nada fica preso a uma fórmula.
Essa liberdade permite que cada faixa tenha identidade própria, mas sem perder coerência no conjunto. Existe uma linha invisível que liga tudo, feita de curiosidade e vontade de experimentar.
“Mazuekeru” já deixa pistas claras disso. Uma canção que parece simples à primeira escuta, mas que cresce à medida que se presta atenção aos detalhes.
Um concerto pensado para participação
A apresentação ao vivo, marcada para dia 19 de abril na Sala Suggia, antecipa esse espírito. Não será um concerto passivo. A ideia passa por envolver o público, criar movimento, provocar reação.
Há uma dimensão quase teatral no que Mão Verde faz em palco. As canções são pontos de partida para interação, não apenas momentos para ouvir.
Num tempo em que grande parte da música se consome de forma individual, este tipo de proposta insiste no contrário. Junta pessoas, gera conversa, abre espaço para perguntas. E fica essa sensação de que, ali, tudo ainda está a começar.

